Cadernos de Seguro

Entrevista

Lúcio Marques

Não é todo dia que se completa 50 anos de carreira. É por isso que o diretor comercial da Companhia de Seguros Previdência do Sul e conselheiro editorial da Cadernos de Seguro, Lúcio Marques, mereceu uma justa homenagem nesta edição da revista. Em 2008 ele completa 50 anos de atividade no mercado de seguros, contribuindo de maneira sempre bastante ativa para o desenvolvimento do setor. Ainda estudante do Colégio Militar de Belo Horizonte, aos 14 anos, Marques começou a carreira em 1958, em uma das firmas que representavam, na época, a Patriarca Cia. de Seguros e a American Motors. De lá para cá, teve a oportunidade de participar dos mais importantes momentos da indústria do seguro. Presenciou a transformação de um setor de seguros incipiente e pouco conhecido em 1958, “com relação prêmio/PIB de apenas 0,82%”, “insuficiência de corretores” e incrustado em uma economia na qual os níveis de inflação eram altíssimos para um mercado moderno, que “acordou e começou a viver intensamente”, com novas tecnologias, corretores e seguradoras buscando especialização e modificações nos sistemas de negociações e cobranças. Depois de crises e momentos difíceis, Lúcio pode fazer, com meio século de experiência, previsões bastante animadoras para o seguro nos próximos 50 anos: “Muita prosperidade, crescimento sustentado, especialização cada vez maior, adaptação às novas tecnologias e mais estudos na área científica”. Mas também alerta para o trabalho que o seguro tem pela frente: “Precisaremos ter maior preocupação com a sobrevivência, com as taxas de mortalidade e de sobrevivência, os estudos de genomas, a melhoria de vida da população mundial no tocante à alimentação e, assim, com o surgimento de novas coberturas, melhores taxas e novos produtos.”

Cynthia Magnani


Como era o mercado de seguros em 1958 em termos de participação no PIB, legislação, concorrência, relacionamento entre as empresas e os clientes etc.?

O mercado de seguros em 1958 tinha uma grande concentração de seguradoras, operava em sistema de co-seguro e não tinha cobrança bancária. As dívidas eram cobradas pelos corretores. Em 1958, por exemplo, a taxa de crescimento anual do PIB era de 10,9%, e o mercado de seguros na relação prêmio/PIB representava 0,82%. Os office-boys das seguradoras ficavam horas nas filas nas portas das seguradoras para receberem o prêmio do co-seguro cedido, e nem sempre logravam êxito, tendo que retornar mais de uma vez ao mesmo local.

Na sua opinião, quais foram as maiores conquistas do setor de seguros brasileiro nestes últimos 50 anos?

Acredito que a modernização do setor, as especializações das seguradoras, algumas regionalizações, a modificação das negociações, o sistema de cobrança por via bancária, a profissionalização do corretor de seguros, as novas tecnologias, tudo isso fez com que o mercado tivesse uma mudança radical.


Apesar do “boom” de transformações vividas pelo mundo na década de 50, o senhor lembra, no artigo, que pouca coisa mudava no mercado de seguros. Por que havia esse distanciamento entre a sociedade, as novas tecnologias e o mercado de seguros?

O setor de seguros era pouco conhecido. Nós não tínhamos ainda setores de Marketing, não existiam maiores esclarecimentos sobre o que era o seguro. Tínhamos insuficiência de corretores. As novas tecnologias ainda eram muito incipientes. Não se cobrava seguro via banco, e sim através dos corretores.

Outra constatação em seu artigo é o fato de a fraude continuar existindo e até ter aumentado em número de casos de 50 anos para cá. O que mudou nesse aspecto desde então?

A fraude, em qualquer ramo de atividade, sempre existiu. Em 1958 já tínhamos fraude em seguros, principalmente nas carteiras de vida e de acidentes. Mudou a tecnologia, mudou o modus operandi, apareceram quadrilhas especializadas em falsificação de documentos. A carteira de automóvel passou a ser a mais procurada pelos fraudadores, devido ao seu crescimento vertiginoso e às facilidades para a prática dos delitos, na visão dos fraudadores, pois estes não teriam que pôr em risco a vida de uma pessoa, como acontecia no seguro de vida. Para tentar reduzir esse problema, a Fenaseg e várias seguradoras têm trabalhado juntas na criação de mecanismos, principalmente para conscientizar e informar a população sobre os prejuízos que esse tipo de crime causa à sociedade.

Como o senhor afirma no texto, a concentração do mercado, já verificada desde 1958, permanece até hoje. Se ela não existisse, como o senhor acredita que mercado estaria atualmente?

Quando me refiro à concentração é porque as dez maiores seguradoras, na época, ou seja, em 1958, representavam 80% do total produzido – e é o que ocorre também hoje. Talvez se neste período não tivessem ocorrido tantas fusões e incorporações poderíamos ter uma gama maior de empresas diluindo a produção realizada.

Outro período de transição foi o ano de 1994, com o lançamento do Plano Real. Como a moeda estável ajudou o seguro a se desenvolver?

O Plano Real foi fundamental, para se ter idéia da mudança radical ocorrida. Principalmente a carteira de pessoas recebeu um incremento bastante acentuado, pois o segurado passou a saber o quanto ganhava, o que podia gastar e como, e quanto sobrava. Com isso passou a adquirir um seguro que lhe proporcionava uma poupança de longo prazo.

Em 2008 o senhor completa 50 anos de seguro. Como analisa a situação do setor na atualidade?

Creio que, nesses 50 anos, a evolução foi estupenda. O mercado cresceu na relação prêmio/PIB; a modernização chegou, trazendo novas tecnologias – que apareceram com força total nas áreas de apoio como o Marketing –; e os corretores começaram a enxergar a necessidade de se especializarem. Nós tínhamos uma indústria estagnada que acordou e começou a viver intensamente.

O que o mercado de seguros deve esperar para os próximos 50 anos?

Muita prosperidade, crescimento sustentado, especialização cada vez maior, adaptação às novas tecnologias, tanto na área informativa como também na de controles internos, ouvidorias e maiores estudos na área científica. Precisaremos ter maior preocupação com a sobrevivência, com as taxas de mortalidade e de sobrevivência, os estudos de genomas, a melhoria de vida da população mundial no tocante à alimentação e, assim, com o surgimento de novas coberturas, melhores taxas e novos produtos.

15/07/2008

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