Cadernos de Seguro

Entrevista

Mauro Rezende Lopes

Uma crise sem definição – recessão ou depressão? –, causada por falta de confiança no mercado financeiro e cujos reflexos e duração ainda não podem ser previstos. É assim que Mauro Rezende Lopes, membro do Conselho Consultivo do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) da FGV/ RJ, define a atual crise financeira internacional nesta entrevista exclusiva para a Cadernos de Seguro. O que vem pela frente, ninguém sabe, mas os efeitos que o problema tem deixado como rastro mostram o perigo. “O Brasil teve queda nas previsões de crescimento, revistas nas últimas semanas: de 5,2% caímos para 4,8%, para 4,3%, e hoje já se fala em crescimento de 4%”, informa. Até na China, o gigante asiático que já chegou a crescer 10% por ano, a situação pode ser ainda pior: “As previsões de crescimento da China caíram de 9,5% para 8,5% ao ano, e hoje há o receio de que caiam cerca de 8%”, complementa.

E mesmo sem poder dizer exatamente quando a crise acabará, Rezende prevê que, pelo menos até 2010, os efeitos da crise estarão bem presentes na economia. Isso porque, segundo ele, “como a crise é de confiança, levará muito tempo até que ela seja restabelecida”. Pelas afirmações de Rezende – que vê na imprensa um grande aliado para informar a população sobre o que realmente está acontecendo –, parece mesmo que ainda vai demorar muito tempo até que seja possível confiar novamente nos mercados financeiros. “Os agentes do mercado financeiro sabem de informações estratégicas que nos seriam valiosas, mas não divulgam, não falam. Quando soubermos de alguma coisa, esteja certa, nada mais restará a fazer.”


Cynthia Magnani

Quais setores da economia brasileira serão mais afetados pela crise? Quais foram os mais afetados até agora?

Até agora, os setores mais afetados foram – e serão no futuro – o das commodities (minério de ferro, por causa da recessão na indústria) e o de alimentos. Os mais afetados, como o de alimentos, são aqueles que viram o Dólar se valorizar e a moeda dos países importadores, por conseqüência, se desvalorizar. Mesmo com os preços em queda, como a soja abaixo de US$ 9 e o bushel de milho abaixo de US$ 5, a valorização do Dólar foi muito alta. Veja o caso do Brasil: se tivesse que importar comida (trigo será importado, mas apenas cerca de 5 milhões de toneladas, porque, do consumo de 10 milhões, 5 milhões serão produzidas aqui mesmo), mesmo com os preços no mercado externo baixos, teria que gastar R$ 2,35 por cada dólar. Os preços internos vão aumentar. Aí o consumo cairá – como está caindo no mundo, no caso dos alimentos. Sofrem consumidores, produtores e toda a economia. No caso do algodão, com preços abaixo de 50 centavos por libra-peso, a valorização do Dólar e a crise no setor de tecidos tornaram a produção da pluma altamente arriscada. Outros setores irão ter redução de atividade, mas a recessão não vem de uma vez só, virá setor por setor. Tudo dependerá de uma pergunta até agora sem resposta: “Do que estamos falando, de uma recessão ou uma depressão?” No último caso, todos os setores serão atingidos muito rapidamente.

O crescimento econômico de países como China, Brasil e outros emergentes, como a Índia, será muito prejudicado?

As previsões de crescimento da China caíram de 9,5% para 8,5% ao ano, e hoje há o receio de que caiam cerca de 8%. Isso é um problema. Se todo chinês comer mais um frango por habitante por ano, serão necessárias 30 milhões de toneladas só de milho para atender à produção das aves. Mas pense o contrário: se cada chinês reduzir o consumo de frango em meio frango por habitante ao ano, sobrarão cerca de 15 milhões de toneladas de milho no mercado – sem comprador (no momento). Os preços vão simplesmente despencar. Ambos os países, China e Índia, já estão com previsões de menor crescimento a cada semana. A Índia terá um crescimento inferior aos 7,5% ao ano, o que era previsto. Se tiver sorte, ela crescerá uns 5% – e estou sendo otimista. Mas tudo é ainda absolutamente indefinido. Só revemos projeções, como o mundo todo, para baixo. O Brasil teve queda nas previsões de crescimento revistas nas últimas semanas: de 5,2% caímos para 4,8%, para 4,3%, e hoje já se fala em crescimento de 4%.

É possível prever quanto tempo durará a crise?

A rigor, absolutamente não. O certo é que 2009 e 2010 estão totalmente comprometidos. Isso só falando do setor real da economia, sem mercado financeiro, muito menos bolsas. A crise não é de políticas econômicas, nem monetárias, nem fiscais. A crise é de confiança, e os economistas não têm políticas para esse tipo de situação. Se fosse só uma recessão, poderíamos aumentar os gastos públicos, reduzir o compulsório, os juros, etc., mas nada disso produziu resultados, porque essa crise não tem fundo econômico. Dependerá de confiança – algo perdido em relação ao mercado financeiro.

Quanto tempo os mercados financeiros mais afetados levarão para se recuperar?

Como a crise é de confiança, levará muito tempo até que esta seja restabelecida. As notícias recentes têm sido bem piores do que se imaginava. Revisões de crescimento abaixo das que mencionei, queda de empréstimos privados, etc. Mas os dois grandes riscos que ainda não ocorreram são: a falência de um novo grande banco e um aperto de crédito de exportação maior do que o que há hoje. Só falta isso para haver uma enorme depressão mundial. Quanto a recessões, vivemos computando trimestre a trimestre as quedas do crescimento dos PIBs do mundo todo. Não há previsão possível de recuperação no cenário iminente.

Como deverá ficar o cenário mundial depois que a crise for controlada?

Por enquanto, essa é uma pergunta difícil. Teremos que controlar esse “fogo que não se apaga” no mercado financeiro. Depois vamos ver como ficaremos. Hoje toda e qualquer peça de informação é absolutamente indispensável. O papel da imprensa, atualmente, é maior do que em toda a História. Se não fosse pela imprensa, nós estaríamos muito mais “vendidos no lance” do que estamos. Entrevistas como essa têm que ser feitas uma vez por semana, no mínimo. Melhor duas. Uma na segunda e outra na quarta. Os agentes do mercado financeiro sabem de informações estratégicas que nos seriam valiosas, mas não divulgam, não falam. Quando soubermos de alguma coisa, esteja certa, nada mais restará a fazer.

12/01/2009

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