Cadernos de Seguro

Entrevista

Sérgio Rangel Guimarães

Gestão. Palavrinha recorrente em qualquer conversa sobre o atual mundo dos negócios, ela foi uma das responsáveis pela crise financeira que se espalhou pelo globo neste começo de século, materializada pelo mau gerenciamento de títulos financeiros de alto risco, aliada à tendência do homem de não dar “a real importância aos riscos que ele acredita ‘controlar’”. Esse mau costume da espécie humana é comentado por Sérgio Rangel Guimarães, entrevistado desta edição da Cadernos de Seguro.

Para Rangel, uma das lições que a crise do subprime deixa para os administradores do presente e do futuro é não acreditar demais nos riscos chamados “domesticáveis”, pois “o excesso de risco é uma ‘bomba-relógio’ que realmente explode”. Provavelmente, os primeiros a aprender isso foram os investidores, que “correram por um bom tempo sobre o fio da navalha, investindo fortunas em papéis hipotecários, equivocadamente classificados pelas agências de rating como títulos de baixo risco”, comenta o entrevistado.

E mesmo com produtos que ajudam as empresas a se protegerem, como seguros contra quebra de máquinas e equipamentos, fidelidade por parte dos empregados, risco de engenharia, crédito (interno e à exportação), prestamistas, lucros cessantes e outros citados por Rangel, o bom senso é, ainda, a melhor maneira de manter os negócios longe da crise e de outros possíveis problemas.


A crise financeira internacional teve início com a má gestão de títulos imobiliários que apresentavam um enorme risco. Qual outro tipo de risco pode ser ocasionado por uma administração malfeita?

Vivemos em um mundo extremamente competitivo e desigual. Viver representa correr riscos. Sem assumir conscientemente riscos, ninguém se atreveria sequer a atravessar uma rua para chegar ao trabalho. O problema é tentar atravessar a rua em local distante do sinal e da faixa de segurança, com veículos em constante movimento. Podemos nos arriscar e até chegar mais cedo ao trabalho do que nossos colegas, porém a probabilidade de sermos atropelados durante a travessia aumenta de forma significativa. Chamamos isso de “exposição ao risco”. No mundo dos negócios, a rua está repleta de outros riscos, tais como: risco legal, operacional, de crédito, liquidez, estratégico, subscrição, mercado, etc. Em determinadas situações, tais riscos não respeitam nem mesmo o sinal fechado, muito menos as faixas de segurança pintadas no asfalto. Em tempos de crise, os administradores devem buscar a adoção de estratégias que otimizem a travessia com algum grau de segurança e baixa exposição. Esse é o grande desafio. A lição que talvez tenha sido tirada do subprime é que o excesso de exposição é uma “bomba-relógio” que realmente explode.

Enquanto não se produz uma regulação mais rígida para fiscalizar as instituições financeiras, o que se pode fazer para evitar novos desastres econômicos?

Quem souber responder a essa pergunta se habilitará a receber o Prêmio Nobel de Economia. Porém, creio que exista uma questão básica sobre o tema que exige reflexão: são os mercados que provocam as crises ou são as crises que afetam os mercados? O cálice estava cheio, quase transbordando. O subprime talvez tenha sido a gota final, aquela que fez o cálice trasbordar. Agora, saindo de cima do muro, penso que a causa seja o mau desempenho da economia e, a consequência, a acomodação dos mercados. Assim, a prevenção de novos desastres está relacionada diretamente aos fundamentos econômicos.

O senhor diz, em seu artigo, que “a preocupação com o amanhã tem se tornado um pesado fardo para o homem”, mas pelo menos no Brasil, questões importantes como o aquecimento global e a violência urbana ainda não recebem muita atenção do mercado de seguros. Por quê?

Vou além. Tais questões não são prioritárias nem mesmo na esfera pública. Talvez a resposta possa ser encontrada na simples constatação de que o homem teme o que ele não controla. Por exemplo: por que um fumante tem medo de viajar de avião, quando o cigarro é uma ameaça muito mais concreta? Por que nos indignamos com as indústrias por colocarem conservantes em nossos alimentos? Mesmo assim entupimos todos os dias a nossa comida com sal, açúcar e gorduras – que são comprovadamente bem mais perigosos. Por que os EUA gastam mais para combater o terrorismo do que para deter o aquecimento global? Por que nos preocupamos excessivamente com probabilidades remotas enquanto ignoramos probabilidades muito altas? Tudo é reflexo de uma visão distorcida do risco que, muitas vezes, desencadeia sérias distorções sociais. O fato é que o homem exagera na dimensão do risco de qualquer ameaça considerada fora do seu controle e, paralelamente, não dá a real importância aos riscos que ele acredita “controlar”.

Por que as empresas de rating “erraram” nas avaliações feitas em empresas envolvidas com a crise? O que poderia ter evitado isso?

As empresas de rating realmente falharam. Deixaram de identificar os problemas dos fundos alavancados que provocaram a bolha do subprime. Os investidores correram por um bom tempo sobre o fio da navalha, investindo fortunas em papéis hipotecários – equivocadamente classificados pelas agências de rating como títulos de baixo risco – quando, na verdade, eram investimentos altamente arriscados. Os sinais da crise eram evidentes, mas o timing dos eventos não era claro. Enquanto o mercado imobiliário estava inflacionado, bancos e financiadoras de hipotecas ganhavam muito dinheiro, emprestando para qualquer um que batesse às suas portas. O círculo vicioso fomentou um mercado no qual os bancos de investimentos ganhavam muito dinheiro reempacotando as hipotecas em novos derivativos. Assim, todos os ingredientes do clássico problema da “crença do peru” – que cito no meu artigo – estavam dispostos sobre a mesa. Deu no que deu. O fato é que os modelos utilizados pelas empresas de rating são matematicamente sofisticados, baseados em dados históricos e, principalmente, recheados de limitações e simplificações sobre o comportamento humano diante de certas situações. O mundo é bem mais complexo do que imaginamos.

Como o senhor comenta em seu artigo, “quem garante riscos também acaba por correr riscos”. Como o mercado de seguros pode “escolher” quais riscos correr com relativa segurança, em um momento repleto de incertezas, como o atual?

O bom senso dirá para priorizar os riscos que se enquadram na categoria de “domesticáveis” em tempos de crise. Nessa categoria, situam-se, por exemplo, os seguros de pessoas, exceção dada à garantia de desemprego.

19/03/2009

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