Cadernos de Seguro

Entrevista

Por Vera de Souza


Depois de mais de seis décadas dedicadas ao mercado de seguros, o mineiro de Barbacena José Francisco de Miranda Fontana diz, brincando, que encontrou o seu caminho no mundo: servir ao próximo e ainda ser remunerado por isso! Corre nas veias da família a mesma paixão. Cinco de seus seis filhos trilham o mesmo caminho, assim como alguns sobrinhos, noras e, atualmente, um dos netos. Até mesmo a falecida esposa, Dona Ebe, não escapou à saga familiar. Aos 65 anos matriculou-se no curso da Funenseg e, quando era perguntada pelos professores do porquê dessa decisão tardia, respondia prontamente: “Assim vou poder participar mais ativamente das conversas nos almoços de domingo.”

Personagem dos mais importantes para o setor, tanto por seu empenho na formação profissional como pela luta, ao lado de outros companheiros, para a manutenção e organização do mercado segurador, Fontana atribui a gênese dessa paixão a fatos ocorridos em sua família. “Para entender como me entusiasmei com o seguro, é preciso voltar no tempo. A origem de minha família em Minas, remonta ao ano de 1740, quando meu avô chegou de Barcelos, Portugal. Em 1901, quando minha mãe já era nascida, a casa deles pegou fogo. Era a principal casa de Ibertioga (antigo distrito de Barbacena). Os compadres e os vizinhos fizeram um mutirão e ajudaram a reconstruir a casa. Meu avô não tinha seguro e nem sabia o que era. Não bastasse isso, em 1921, aos 60 anos, meu avô morreu e deixou minha avó com nove filhos, tendo o mais novo oito anos, numa grande fazenda. O resultado é que minha avó teve que vender a parte dela para conseguir criar a família. Se tivessem seguro, nada disso seria necessário.”

A morte do avô desencadeou, mais tarde, outra ação benéfica para a comunidade. Como não havia médico na cidade e a solução era levar o enfermo a cavalo para Barbacena, ele não resistiu. Em decorrência do trauma familiar, alguns anos depois, Fontana conseguiu, com a adesão de outras pessoas, fundar a Santa Casa de Misericórdia de Ibertioga, cidade na qual foi prefeito por dois mandatos, de 1989 a 1992, e de 1997 a 2000.
Fontana não nega a origem: como bom mineiro é um ótimo contador de “causos”. Em sua trajetória profissional colecionou um infindável número de episódios, seja como inspetor de sinistros do IRB, de 1946 a 1968, com alguns dos relatos presentes em seu livro “O Mensageiro da Esperança”, ou como corretor de seguros, tema que abordará em seu segundo livro, a ser lançado em 2011.

O seguro: um verdadeiro sacerdócio
Nascido em 1926 em Barbacena, município que teve importante participação nos movimentos políticos que agitaram a região das Alterosas e o país a partir da segunda metade do século XVIII, e que legou ao estado dois governadores, oriundos do clã dos Bias Fortes e dos Andradas, era um verdadeiro templo político. Fontana foi criado nesse ambiente, de onde só saiu aos 17 anos para viver no Rio de Janeiro, com intuito de fazer o curso preparatório para a faculdade. Na capital da República, seu primeiro pouso foi a casa de uma tia, que era afilhada do ex-governador de Minas Gerais, Antônio Carlos Andrada e que, naquela época, presidia a Sul América. “Fomos apresentados e, claro, ele me empregou imediatamente. E lá estava eu, um rapaz de quase 18 anos que não entendia nada de seguros. Como fui levado pelo presidente, participava dos almoços da diretoria no restaurante da empresa, além de ocupar um dos apartamentos na Rua Pires de Almeida, em Laranjeiras, que pertencia à empresa. Como não entendia nada, não tinha diálogo. Era fundamental aprender sobre seguros se quisesse subir na vida, mas não havia escola. Tinha que ser na prática, e para chegar a chefe levaria de 10 a 12 anos. Para ter uma ideia, na seção em que fui lotado, o chefe tinha 16 anos na empresa, e o subchefe, 12. Então aconteceu um fato importante, num desses almoços falaram que o IRB, que tinha sido fundado em 1939, estava promovendo cursos de extensão, o CE-IRB. Ensinavam português, matemática, geografia e seguros para melhorar o nível. O IRB era presidido pelo João Carlos Vital, que depois esteve à frente da Funenseg, e para ele não podia haver favorecimento, tudo tinha que ser feito na base do concurso. Como o expediente na Sul América começava às 9h, eles permitiam que quem estivesse no curso do IRB pudesse entrar mais tarde. Já no IRB soube que quem tirasse o primeiro lugar no curso, ganharia CR$ 3 mil. Eu ganhava CR$ 560 na Sul América. Tratei de estudar. Enquanto os jovens da minha idade iam à praia, às festas e namorar, eu vivia só para trabalhar e estudar. Tive a chance de ter grandes professores, como Arcílio Papini, Thales Melo, João José de Souza Mandes, Weber José Ferreira e Geraldo Freitas, entre outros. No final, fui recompensado: tornei-me o primeiro colocado nos dois anos de curso. Quando venci, dei um almoço para a minha torcida na Confeitaria Colombo.”

Daí para frente as vitórias se somaram, surgiu uma vaga para inspetor de sinistros do IRB, em São Paulo e, por recomendação de João Carlos Vital, fez um curso de regulação de sinistros. O jovem que há poucos anos entrara para a Sul América com um salário de CR$ 560 já recebia CR$ 800, e se fosse aprovado para o IRB, seus ganhos chegariam a CR$ 3.500. Mas uma vez ele se empenhou e tirou o primeiro lugar. E assim, em janeiro de 1947, chegou à capital paulista, desembarcando no tímido aeroporto de Congonhas, ainda sem pista de asfalto, para assumir seu novo posto. A primeira vistoria foi no mesmo dia de sua chegada, um incêndio num bazar da Duque de Caxias. Aliás, um princípio de incêndio que não se propagara, graças à ação dos bombeiros. Desse primeiro caso, Fontana guarda a lembrança do proprietário, o italiano Achiles Fazzia, para quem teve que mentir. Percebeu que Fazzia não se sentia seguro com o seu trabalho e logo entendeu por que. “Embora tivesse 20 anos, disse que ia completar 23, o que aliviou um pouco a sua insegurança. Felizmente ele não pediu comprovação. Ao final do processo, recebeu a sua indenização normalmente.”

A rápida mudança profissional e de cidade também foi decisiva para definir sua carreira. Fontana, que no Rio se preparava para cursar Engenharia, ouviu a orientação do inspetor regional do IRB em São Paulo, Adolfo Martinelli, que recomendou que ele estudasse Direito. Assim foi, fez a prova para a Universidade de São Paulo e, mais uma vez, saiu-se bem. “Havia exame escrito e oral, mas o que valia mesmo era esse último. As provas eram de Português, Francês e Latim. Dominava essas línguas e mais o Inglês. Estudei alguns anos de latim que me serviram para ajudar nas missas como coroinha. Aliás, por pouco não me tornei padre. Numa visita do monge dominicano, Frei Sebastião, às paróquias em busca de meninos que tivessem vocação, ele identificou em mim e no jovem Luiz Moreira Neves, de São João Del Rey, essa inclinação. Luiz foi para o seminário e mais tarde se tornou o cardeal Dom Lucas Moreira Neves. Quanto a mim, segui os conselhos de minha mãe, que recomendou que eu esperasse mais um pouco. Bom, arranjei uma namorada e acabou a vocação!”
O ano de 1949 marcaria definitivamente sua vida. O incêndio em uma loja de ferragens em Taubaté o levaria a conhecer aquela com quem compartilhou 55 anos de vida. Depois das apurações normais, seguiu à noite para apreciar o footing na praça central, prática normal à época. Uma jovem chamou a sua atenção, era Ebe Barbosa Lima Martins. Um ano mais tarde, o reencontro, já em São Paulo, e em 1952 se casaram. Dessa união tiveram seis filhos: Élcio, Nélson, Celma, Celso, Elza e Daniel. Desses, apenas Celso não seguiu carreira na área de seguros, embora tenha trabalhado por um tempo na Funenseg.

Dentre as entidades que ajudou a fundar e que presidiu está a Sociedade Brasileira de Ciências do Seguro. Criada em 1953, tinha como finalidade ministrar cursos. Fontana foi seu presidente por 14 anos. Além desta, o Clube dos Corretores de Seguros de São Paulo, o Sindicato dos Corretores de Seguros, também em São Paulo, a Seção Brasileira da Associação Internacional do Direito do Seguro e a Escola Nacional de Seguros – Funenseg.

Na Sociedade Brasileira de Ciências do Seguro, conheceu Roberto Porto, o que desencadeou uma mudança de rumo. “Ele e o Roberto Nazaré foram meus alunos na Sociedade e tinham uma corretora de grande prestígio, a Porto Nazareth. Fizeram uma proposta de tal forma vantajosa que deixei o IRB, depois de 22 anos. Mas não foi tão fácil assim. A Lei 4.594 exigia para o exercício da profissão uma certidão do sindicato, ou ainda, ter sido preposto num escritório de corretagem. Eu não tinha nenhuma dessas credenciais e não havia curso para a formação de corretor no Brasil. Havia muitos opositores à lei, e Roberto Porto, que à época era do Conselho Nacional de Seguros, me disse: ‘Ou criamos o curso ou a lei terá que ser modificada’. A pedido de Porto redigi o projeto para a criação do curso de corretores. O Conselho Nacional aprovou e a Sociedade Brasileira de Ciências do Seguro realizou o primeiro curso do Brasil, sob a supervisão do IRB. O José Lopes de Oliveira, então presidente do IRB, cedia funcionários para dar aulas, e como decorrência natural, viu-se a necessidade de criar a Escola Nacional de Seguros.”

Posse atribulada
No dia 07 de outubro de 1974, Fontana tomaria posse como presidente do Clube de Corretores. Naquela manhã, no entanto, o mercado foi surpreendido pelos jornais com a notícia de que o ministro da Casa Civil havia encaminhado ao Congresso o Projeto de Lei 1290-A, que, se aprovado, acabaria com a categoria dos corretores de seguro.

O projeto previa, entre outros assuntos, que os seguros com prêmios com valores abaixo de cinco salários mínimos poderiam ser realizados sem a intermediação do corretor. Além disso, outro artigo da proposta eliminava o impedimento de funcionários públicos e de seguradoras de atuarem como corretores de seguros. “Já estava com meu discurso de posse pronto, o qual, aliás, destacava os progressos da categoria. Imediatamente formamos uma comissão e seguimos para Brasília. O mercado de seguros estava subordinado ao Ministério da Indústria e Comércio e o titular da pasta, Severo Gomes, era meu amigo. Fomos procurá-lo. Expliquei que o projeto enviado por ele era um desastre. A surpresa que tivemos foi ainda maior quando ouvimos do ministro que aquela não era a proposta original. Ele nos mostrou a cópia do documento que, em nenhum momento, apontava para os itens em questão. O que aconteceu é que entre o Ministério da Indústria e Comércio e a Casa Civil, o projeto foi adulterado. Severo telefonou para a Câmara, alertando do erro, e pediu que nós redigíssemos um substitutivo.”

Fontana e os demais membros da comitiva redigiram o novo documento e acrescentaram a [uma]proposta para que a comissão dos seguros diretos fosse destinada à Funenseg. O objetivo era garantir que a entidade crescesse e pudesse oferecer uma boa formação profissional. “Foi então que a Funenseg passou a ter recursos e floresceu.”

O esforço para defender o exercício da profissão de corretor e sua melhor formação educacional rende frutos até hoje. Em casa, não era diferente, como conta seu filho Nélson, hoje associado da MDS Consultores de Seguros e Risco. “Papai sempre foi entusiasmado por seguros, e quando tínhamos 14 anos, começou a nos colocar para fazer alguns serviços na Porto Nazareth. O resultado é que eu e meu irmão mais velho, Élcio, fomos corretores quase que a vida inteira, e trabalhamos juntos na mesma empresa até 1983.”

Em 1983, Élcio montou a Corinto, e cinco anos mais tarde, Nélson criou a Fontana, onde permaneceu por 22 anos até se associar ao grupo internacional MDS. No mesmo período, Élcio, junto com seu primo Fernando Miranda, criou a Miranda e Fontana, que funciona em frente à mesma faculdade de Direito onde seu pai e alguns irmãos se formaram advogados. Élcio é o único que seguiu Administração. No escritório, além do próprio Élcio, já desponta para a profissão seu filho de 19 anos, Daniel, que já fez o curso da Funenseg e pretende seguir a tradição de se tornar advogado especializado em seguros.

Desafios para o futuro
Além de se dedicar ao mercado de seguros, a família sempre manteve o compromisso com a formação profissional, tanto é assim que além do patriarca, Élcio, sua mulher Ana e Nélson aplicaram boa parte do seu tempo a dar aulas e palestras na Funenseg. “Meu pai tinha a visão de que era preciso formar de 20 mil a 30 mil corretores durante uma década. Caso contrário, o governo entenderia que seria necessária outra forma de distribuição, e liberaria a comercialização para bancos etc. Era um momento histórico e papai, então, instituiu os cursos, montou uma equipe que incluía também a família, e conseguiu!”, aponta Nélson.

Nélson destaca ainda que hoje a classe é uma das mais bem organizadas. “Além disso, o setor é bem regulamentado e fiscalizado. Sem dúvida, o desafio para o futuro é complexo. O mercado está se tornando muito grande e precisa de uma estrutura de distribuição forte. Algumas pessoas do setor entendem que necessitamos ter uma média de 60 mil a 80 mil corretores. Se considerarmos que temos mais de 100 mil advogados no estado de São Paulo, como o Brasil inteiro pode ter 30 mil corretores? A estabilidade da nossa moeda permite que o brasileiro comece a se preocupar em planejar, e a corretagem tem que estar atenta a isso. Esse é o caminho que os brasileiros vão seguir”, afirma.

10/12/2010

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