Cadernos de Seguro

Artigo

A queda do ‘castelo de cartas’

[B]Osvaldo Haruo Nakiri[/B]

Nos últimos tempos, só escutamos falar em crise mundial na área econômica. Bolsas do mundo inteiro despencando mais que manga madura da árvore. Para alguns mais ousados, é literalmente, o fim do mundo, pelo menos com as regalias que conheciam. Empresas perderam milhões, seja em qualquer moeda que estivermos falando. Governos se antecipando ao anunciar socorro às empresas mais atingidas com mais programas de contenção de perdas do que quando um tornado classe 5 atinge uma região. O estrago parece ser e é grande.

O epicentro desse terremoto financeiro se localiza no sistema estadunidense, e quanto a isso ninguém tem dúvidas. Os seus reflexos se espalharam pelo globo, como ondas de choque após a explosão de uma bomba.

Grandes empresas norte-americanas e européias, multinacionais, muitas delas, saíram pelo mundo à procura de mão-de-obra e matéria-prima baratas, incentivos governamentais, leis mais amenas.

Acabaram encontrando boa parte desses ingredientes em países do leste, entre eles principalmente, China, Taiwan, Cingapura e Tailândia. Países da América do Sul também, como fornecedores de matéria-prima, entraram na dança. Tais países passaram a ser “fábricas” de várias empresas, que, a partir deles, exportam a preços muito competitivos. Atualmente, de 40% a 50% do faturamento das corporações estadunidenses são resultado de suas operações no exterior. A isso alguns chamam de globalização, uma distribuição do trabalho entre países, o que antes era entre empresas.

Os Estados Unidos são o centro consumidor do mundo, o seu shopping center. Quando a economia estadunidense espirra, o mundo inteiro grita “saúde!”, e não é para menos. Apesar de a sua população corresponder a apenas 5% da mundial, consome 19% de toda a produção do planeta. Não é à toa que sua dívida externa é de trilhões de dólares. Fosse outra nação, já teria sido solicitada a sua moratória há muito tempo. Mas como todo grande devedor, tem lá suas regalias, pois se ele não pagar sua dívida, todos se prejudicam. Ele finge que paga e o resto finge que recebe. Além disso, queiram ou não, é o país cuja moeda é referência mundial. Como ficamos, então?

O Brasil tem um problema crônico. Como diz o ditado, infeliz aquele que vende em saco o que terá de recomprar por quilo. Das empresas que têm ações negociadas na bolsa, 43% são fornecedoras de commodities, portanto, bastante sujeitas aos humores do mercado de transformação local e mundial.

A falta de liquidez já bateu por aqui! No Brasil, quando há uma crise, até o preço da mandioca é influenciado para quem quiser acreditar.

Quem foi pedir dinheiro emprestado sentiu que ele está mais escasso, caro e seletivo do que nunca. Estimativas feitas indicam um aumento de 50% entre janeiro e setembro de 2008. Quem tem não quer emprestar, e quem não tem chora na porta do governo, usando como pretexto um velho argumento: o desemprego e o caos social. A velha ladainha de sempre.

Os setores que receberão ajuda governamental são basicamente a agricultura, o de construção civil e o automobilístico, áreas que mais empregam mão-de-obra e/ou que irrigam a estrutura de produção interna. Esqueceram de dar algum incentivo direto (via redução de imposto, por exemplo) às pequenas e médias empresas que, com sua contribuição conta-gotas, dão emprego a uma parcela muito importante da população ativa. Os bombeiros, nessa crise, são principalmente o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, o BNDES e o Tesouro Federal.

No Brasil, os bancos são obrigados a recolher compulsoriamente, junto ao Banco Central, parte dos depósitos à vista ou a prazo. É um jeito, além dos juros altos, de controlar a quantidade de moeda em circulação, e por tabela, a inflação. Para ajudar a enfrentar a crise, o Banco Central reduziu o percentual de recolhimento compulsório, liberando automaticamente mais recursos para os bancos. Além disso, a nossa taxa de juros tem muita gordura para queimar, se comparada com as taxas praticadas em países do dito Primeiro Mundo.

O setor bancário, como fornecedor de recursos, foi atingido pela crise, mas é um setor muito poderoso no Brasil. Desde a implantação do real em 1994, as benesses concedidas ao setor são imensas. Tanto que, a cada ano, recordes de faturamento são batidos. Apenas utilizando o que cobram por serviços, os maiores bancos quase conseguem arrecadar o correspondente a suas folhas de pagamento. O resto é lucro!

O setor automobilístico, nos primeiros meses de 2008, vendeu mais do que em todos os anos anteriores, alavancado pelo seu próprio sistema de financiamento. Com a crise, há compradores devolvendo seus veículos ou querendo negociar suas dívidas. As vendas naturalmente caíram e os bancos das montadoras passaram a amargar a falta de crédito. Afinal, os veículos eram vendidos em 60 ou mais parcelas, ou seja, um horizonte bastante esticado.

O Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal compraram as carteiras dos bancos ligados às montadoras, em um ato mais político do que técnico. Foram destinados, inicialmente, cerca de R$ 8 bilhões para tanto. Parece muito, mas olhemos um pouco mais de perto o assunto: em 2004, o montante envolvendo financiamento de veículos novos chegou a R$ 38 bilhões, que evoluiu para R$ 84 bilhões até setembro de 2008. A ajuda liberada significa, portanto, pouco menos que 10% do acumulado. Dará um pouco de alívio, porém o sistema é insaciável. Se houver uma inadimplência geral, o bom samaritanismo vai custar caro a alguém.

O setor de construção civil, aparentemente, subiu e sentou no muro para ver para que lado o vento vai soprar. Grandes construtoras estão reavaliando os seus projetos e lançamentos perante a nova realidade. Já falam em adiar uns e cancelar outros. Vai depender do “incentivo” a ser fornecido pelo governo. E claro, o fantasma do desemprego dá o ar de sua graça.

A agricultura, tirando os grandes empreendimentos, está vendo o mercado de commodities entrando em parafuso. Em Mato Grosso, os bancos, pelo menos em novembro de 2008, começaram a tomar dos inadimplentes os equipamentos financiados, além de enviarem ao Serasa os seus nomes, o que futuramente trará maiores dificuldades na obtenção de crédito. Um no cravo e outro na ferradura. Só um detalhe: Mato Grosso e Goiás produzem 41% de toda a soja exportada.

Dependendo das posições que o presidente eleito Barack Obama vier a tomar, os Estados Unidos podem sair fortalecidos ou fragilizados da crise. Os europeus já colocam em dúvida a posição de liderança dos Estados Unidos. Talvez uma nova convenção nos moldes de Bretton Woods necessite ser realizada, se a pressão neste sentido for mantida, atualizando os critérios e impondo novos procedimentos e restrições.

09/01/2009 06h10

Por Osvaldo Haruo Nakiri

Analista de Riscos do IRB Brasil Re, integrante inicial da Comissão Técnica de RCG da Fenaseg em 2000, autor de vários artigos publicados pela Revista do IRB e pela Cadernos de Seguro, sendo nesta os mais recentes “A queda do ‘castelo de cartas’ – A crise mundial ou ‘pimenta nos olhos dos outros é colírio’” (edição 152) e “Maré alienígena” (edição 153)

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