Cadernos de Seguro

Artigo

O mundo não será mais o mesmo

[B]Vitor A. Ozaki[/B]

Os EUA vivem atualmente a pior crise dos últimos 70 anos. O desastre deixou de ser meramente financeiro-especulativo para afetar o lado real da economia, onde se encontram os empregos, as indústrias, os trabalhadores e suas famílias. A crise também se expandiu para outros países no continente, atravessou o Atlântico e está redesenhando o mapa das instituições financeiras em escala global.

Sua origem encontra-se no mercado de hipotecas norte-americano. Logo após a crise das empresas de “internet”, em 2001, o mercado imobiliário dos EUA passou por uma fase de expansão acelerada em um contexto de elevada liquidez global. O “Federal Reserve” (Fed) reduziu a taxa de juros, com a finalidade de reduzir o custo dos empréstimos e financiamentos, e também para incentivar o aumento dos gastos dos consumidores e das empresas. Para se ter uma idéia, em 2003, por exemplo, os juros do Fed passaram de 6% para 1% ao ano, ou seja, a menor taxa desde o final dos anos 50.

Como conseqüência imediata desse fato, houve um aumento da demanda por imóveis. As empresas hipotecárias avançaram em um novo nicho de mercado: clientes do segmento \"subprime\", caracterizados, de modo geral, pela baixa renda e com histórico de inadimplência. O mercado financeiro transformou hipotecas dessa natureza em títulos de primeira linha, que movimentaram o equivalente a US$ 1,5 trilhão.

O fato do segmento \"subprime\" representar um risco maior de inadimplência que outras modalidades de crédito chamou a atenção das empresas financeiras em busca de maiores retornos (“trade off” existente no mercado financeiro).

A busca desenfreada – e muitas vezes irresponsável – por altos retornos atraiu gestores de fundos e bancos, que compraram esses títulos \"subprime\" das companhias hipotecárias. Estas, por sua vez, realimentavam o sistema creditício, antes mesmo das quitações ocorrerem. Esse fato gerou uma cadeia de venda de títulos tão complexa que impossibilitou seu mapeamento e a transparência das operações.

Nesse ambiente, o BNP Paribas Investment Partners, divisão do banco francês BNP Paribas, foi uma das primeiras grandes instituições afetadas pela crise, em agosto de 2007. O banco congelou cerca de US$ 2,7 bilhões dos fundos Parvest Dynamic ABS, o BNP Paribas ABS Euribor e o BNP Paribas ABS Eonia, justificando preocupações com os pagamentos de crédito \"subprime\" nos EUA. Até então, havia pouco conhecimento sobre esse tipo de crédito e as conseqüências avassaladoras que ocorreriam nos meses seguintes.

A crise entrou no ano de 2008 arrastando bancos de investimento (Bear Stearns, Lehman Brothers, Merrill Lynch, Goldman Sachs, Morgan Stanley), bancos comerciais e creditícias (Washington Mutual, Wachovia, Fortis, HBOS, Landsbanki, HSBC, Unicredit), financiadoras de hipotecas (Fannie Mae, Freddie Mac, IndyMac, Bradford & Bingley) e seguradoras (AIG e Yamato Life), em diversos países. Segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), o custo da crise financeira global deve atingir US$ 1,5 trilhão.

De forma extremamente rápida e impressionante, a configuração do mercado financeiro está sendo redesenhada em nível mundial. Nota-se a ocorrência de fusões, falências e nacionalizações, em uma velocidade nunca antes observada.

Fica evidente, portanto, que a crise apresenta aspectos catastróficos e caráter sistêmico e multisetorial. Não se sabe, ao certo, o tamanho das perdas, mas sabe-se que o governo norte-americano já direcionou um total de US$ 1,6 trilhão para conter a crise, acima da expectativa do FMI.

No mercado acionário, as perdas são estimadas em US$ 17 trilhões. Em um ano, o valor de mercado das empresas listadas nas principais bolsas ao redor do mundo passou de US$ 34,2 trilhões para US$ 24,8 trilhões. Nota-se que o sistema bancário foi o mais afetado pela crise. Ao todo, 13 bancos faliram nos EUA e os principais bancos de investimento desapareceram.

Entretanto, a crise não afetou apenas o sistema financeiro. Ela está se alastrando para a economia real. Um termômetro da economia norte-americana é a venda de veículos. Em outubro houve graves problemas de redução nas vendas das principais empresas automobilísticas: a General Motors registrou queda de 45% em suas vendas, a Ford, 30%, a Toyota, 23%, Chrysler, 24,5%, Mercedes, 34,3%, e Porsche, 50,1%.

O Brasil também foi duramente afetado pela crise. Aqui, o valor das ações também apresentou perdas consideráveis desde o início da crise. A tendência é que a crise contamine também a economia real, em duas áreas, principalmente: o crédito externo e as exportações brasileiras para o resto do mundo.

O fato é que ainda estamos navegando em águas oceânicas desconhecidas, com muito nevoeiro e sem o auxílio de aparelhos eletrônicos de navegação.

Qualquer tentativa de previsão será um evento aleatório, em que haverá uma probabilidade associada, porém impossível de atingir 100% de certeza.

Se existe alguma certeza, talvez seja o fato de que o sistema econômico não entrará em colapso, como salienta Gary Becker, prêmio Nobel de economia. O capitalismo sobreviverá. Crise após crise, as economias apresentam taxas de crescimento sem precedentes graças à competição em escala global. No entanto, o capitalismo se modifica. O mundo pós-crise não será o mesmo. Os padrões de crédito e consumo se modificarão, haverá maior regulação e fiscalização dos mercados, maior cooperação multilateral entre os bancos centrais e um novo papel das economias emergentes na economia mundial.

09/01/2009 06h15

Por Vitor A. Ozaki

Engenheiro, Doutor pela ESALQ/USP, Pós-Doutorando no Dept. de Economia, Administração e Sociologia – ESALQ/USP

Cadernos de Seguro - Uma Publicação da Escola Nacional de Seguros © 2004 - 2017. Todos os direitos reservados.