Cadernos de Seguro

Artigo

A crise financeira: o que a motivou?

[B]Bernardo Weaver[/B]

A presente crise financeira foi causada pela sobrevaloração de uma determinada classe de ativos. No caso, foram os ativos imobiliários que tiveram essa valorização anormal, bem maior do que a de outros ativos. Normalmente, os ativos financeiros não se valorizam nem perdem valor de maneira uniforme. A valorização desigual é a norma do mercado financeiro, que é livre por excelência e age baseado em um conjunto de informações que são essencialmente assimétricas. Por isso, é muito pouco provável que a valorização homogênea ocorra por um largo espaço de tempo. Essa sobrevalorização não é nada extraordinária. A diferença é o seu grau. Vários autores sérios e respeitados consideram essa crise comparável à Grande Depressão que começou em outubro de 1929, ou até mesmo um episódio ainda pior.

Por outro lado, se houve valorização acentuada, percebe-se que há grande margem para desvalorização dessa classe de ativo. Foi isso que os investidores no mercado identificaram. Se há um movimento muito brusco de subida consistente, aumenta-se o espaço para a descida (também chamado de correção) em igual proporção.

É natural da vida, da natureza, da lei da gravidade e, conseqüentemente, do próprio mercado financeiro, que é o vetor resultante de vários vetores puxados em todas as direções, liderados por forças ligadas a informações incompletas e que todos os atores, individualmente, têm em sua posse. Mesmo se fosse possível unir toda a informação disponível para todos investidores, ainda assim elas seriam imperfeitas. Assim como o homem em relação à vida, as pessoas no mercado não têm acesso a todas as informações existentes. Daí se explica o instinto do investidor, a sorte, a superstição no risco da aposta e até mesmo a religião. Essa é a vertente extremamente humana do mercado, que comete erros e realiza acertos, sobrevalorizações e subestimação de movimentos. Por isso o mercado é uma das instituições mais humanas.

Muitos daqueles que reclamam da crise culpam o mercado. Diz-se que isso foi um erro do mercado, “uma prova final de sua falência”, que “o mercado é uma jogatina” e que ele deveria acabar. Hoje ele recebe fundos do mundo todo, subsídios de todas as partes. O mercado é uma instituição humana, que comete erros como todos nós cometemos todos os dias, e que, por isso, só pode acabar quando acabar a espécie humana.

Os governos do mundo todo dão dinheiro para o mercado superar a crise de liquidez. O povo pobre não entende. Se o mercado acabar, o mundo vai sofrer uma grande crise de liquidez, que vai impossibilitar o funcionamento das economias dos países, e a situação vai piorar mais. Por saber disso, as naç~eos seguem dando dinheiro para uma crise criada pelo mercado, causada por seus erros. Esse mercado ganhou muito dinheiro antes da crise, mas agora não pode perder mais dividendos, porque isso levaria as economias nacionais a sofrerem muito mais do que já sofreram. É muito difícil para o povo entender isso.

Mas pode ser explicado:

Os governos do mundo todo seguem pagando pelos erros de Wall Street, para que Wall Street mantenha seus empregos, suas Ferraris, suas casas de praia, suas mulheres espetaculares e muito mais. Isso é justo? Não, não é justo, mas é o que é possível ser feito neste momento, para evitar males muito mais profundos.

Por que o mundo chegou a essa situação de depender tanto de Wall Street (e por Wall Street entenda-se “o mercado de capitais internacional”)? A atividade financeira tem o condão da alocação mais eficiente possível de recursos no mercado, e para isso cobra um prêmio, uma taxa, uma comissão, para que através da correta alocação de recursos a economia consiga se movimentar e os investimentos possam obter o maior retorno possível, com a maior eficiência no uso de recursos.

Como uma atividade alocadora de recursos, a atividade financeira passou a ser a grande propulsora da economia privada. Assim, se em 1970 a atividade financeira representava 4% do PIB dos EUA, hoje ela representa cerca de 20%. Ser juiz do direcionamento dos recursos na economia é realmente uma atividade muito importante, talvez a mais importante, porque todas as outras atividades dependem do mercado financeiro.

Quando o mercado financeiro permitiu uma sobrevalorização de uma classe de ativos, o governo teve que correr para salvá-lo. Quando o mercado ganhou muito dinheiro no período anterior, o governo não se beneficiou desse ganho. É o preço de permitir a atividade financeira de maneira descontrolada. É, na verdade, um dos perigos da atividade financeira: permitir que ela seja fortalecida até um ponto em que pode pressionar os governos a cederam às suas pressões por mais alavancagem, menos reservas, mais riscos desprotegidos, maiores lucros, sem maiores responsabilidades.

Nessa época de modernos produtos financeiros, é importante que os governos se desenvolvam e mantenham compromisso firme com os valores antigos de regulamentação de reservas financeiras. Nada do que está aí no mercado é novo. O mercado financeiro é uma atividade muito antiga. Talvez a segunda mais antiga do mundo. As operações básicas são uma obrigação de depósito, sobre a qual o banqueiro paga um juro, e a operação de empréstimo, sobre a qual o banqueiro recebe juros. A diferença entre as duas taxas é o lucro, que permite o sustento e a expansão do seu negócio.

Essa é a crise que nos abate, e que deve permanecer aí por muito tempo, até que os bancos possam avaliar o valor de seus ativos e o tamanho de seus passivos oriundos da questão imobiliária norte-americana. Enquanto isso não ocorrer, não haverá dinheiro a baixo custo sendo emprestado para a atividade produtiva. Assim, a economia norte-americana e, conseqüentemente, o resto do mundo, vão enfrentar uma recessão violentíssima, que, na humilde opinião deste autor, tem grandes chances de ser comparável à crise de 1929, pequenas chances de superá-la e chances desprezíveis de se encerrar já nos próximos seis meses (primeiro semestre de 2009).

Concluindo, a crise foi causada por falta de regulamentação adequada de reservas para a atividade financeira, e uma política de juros que ignorou essa falta de regulamentação de reservas. Culpar o produto derivativo, a securitização de contratos imobiliários e até mesmo outros contratos que apostam nos índices, chamados de contratos “modernos”, segundo os quais muita gente “não entendeu no que investia”, é uma atitude muito e, no mínimo, desleal, do ponto de vista intelectual. Conforme explicado neste artigo, o derivativo e todas as outras operações são baseados em relações bem simples, que dificilmente seriam consideradas incompreensíveis para qualquer investidor atento e responsável que arriscasse o seu dinheiro – ou de clientes – profissionalmente.

12/01/2009 02h48

Por Bernardo Weaver

Advogado formado pela PUC-Rio, com mestrado em direito de seguros nos EUA. É autor de inúmeros artigos e consultor internacional do Banco Mundial em Washington, na área de seguros e mercado financeiro.

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