Cadernos de Seguro

Artigo

“Marola” que pode virar ressaca

[B]Fernando de Holanda Barbosa Filho[/B]


A crise econômica atual foi originada por uma série de fatores já conhecidos: abundância de recursos, intervenção governamental, contratos mal desenhados e falha na regulação. O primeiro fator, excessiva quantidade de recursos disponíveis para empréstimos, esteve aliado a uma baixa taxa de juros, o que eleva a demanda por oportunidades de ganhos, apesar dos riscos também aumentarem em tais transações.

A interferência do governo no mercado, por sua vez, estimulou empréstimos para as classes classificadas como subprime. O grupo que compõe os tomadores subprime é composto de forma significativa por minorias e consumidores de baixa renda. Com o nobre objetivo de oferecer às minorias acesso ao financiamento para a casa própria, o governo Clinton estimulou a concessão de empréstimos aos mutuários subprime, dando aos bancos a garantia de que esses empréstimos seriam pagos, em caso de calote, pelas agências subsidiadas pelo governo americano, Fannie Mae e Freddie Mac. Essa garantia do governo fez com que bancos fornecessem empréstimos para grupos que antes eram desconsiderados, devido ao alto risco de inadimplência dos mesmos.

O terceiro fator que contribui para o surgimento da crise foi o desenho ruim dos contratos dos gestores de bancos, que estimulava a concessão de crédito apesar da precariedade dos empréstimos, visto que a remuneração dos gestores era relacionada à quantidade de negócios, a despeito da qualidade dos mesmos.

Outro aspecto importante para entender a crise reside na securitização dos empréstimos subprime. A securitização, existente há muitos anos, forma papéis estruturados que são compostos por um portfólio de empréstimos, hipotecas, títulos, e recebível de cartão de crédito. Esses papéis são classificados pelas agências de risco, facilitando sua precificação e posterior venda. Esse instrumento possibilitou uma transformação na indústria bancária para o chamado “originate and distribute”, que permite que o banco crie um determinado ativo e venda o mesmo através de papéis estruturados, em troca de dinheiro novo para que a operação possa ser repetida. Uma vez vendidos, esses papéis não aparecem no passivo do banco, permitindo novos empréstimos. Esses papéis, que possuem a garantia (em última instância) dos bancos que os originam, permitem uma grande alavancagem dos bancos, uma vez que não aparecem em seus balanços, chegando a números elevados, como a alavancagem de até 34 vezes de um fundo do Lehman & Brothers.

A crise começou a aparecer com a estabilização dos preços dos imóveis, que ocasionou o começo do não-pagamento dos empréstimos. A elevação da inadimplência mostra os primeiros sinais da crise já em meados de 2007. Em maio e junho, vários contratos subprime têm a sua classificação de risco rebaixada pelas agências. Em julho, o índice de vendas de casas novas mostra uma retração de 6,6%. Esse processo vai deteriorando lentamente, até o aprofundamento recente da crise, que teve seu ponto mais marcante na quebra da Lehman & Brothers.

Como os papéis estruturados oferecem risco de performance, um seguro foi criado para eles, o CDS (credit default swap), que permitiu um “alavancagem” até das seguradoras, como foi o caso da AIG, que acabou sendo socorrida pelo governo. A seguradora ofereceu seguro a papéis de alto risco e em quantidade elevada, que faziam com que ela operasse alavancada, numa atividade muito mais parecida com a de um banco do que de uma seguradora.

A prolongação da crise está atrelada à característica do mercado de papéis estruturados, que permite aos bancos distribuir os mesmos sem que estes apareçam no ativo. Este fato aprofundou a crise, visto que é mais difícil avaliar quais foram os agentes mais fortemente atingidos por ela, não possibilitando a fácil identificação dos bancos e agentes financeiros “quebrados”, daqueles com problemas de liquidez.

O grande risco para a economia brasileira é que a crise mundial cause redução do crédito interno – fato que afetaria de forma significativa a economia real – e do produto. Entretanto, até outubro de 2008, os dados de crédito doméstico mostram uma expansão no crédito total, que passou de 39,2% do PIB para 40,2%, com o crédito livre aumentando de 28,2% para 28,8% e com o crédito direcionado indo de 11% para 11,4%. Mesmo assim, é importante que o governo fique atento para intervir caso ocorra uma redução de crédito na economia brasileira, pois, nesse caso, o impacto sobre a economia do Brasil poderá ser maior do que aquele inicialmente esperado (através do comércio exterior), transformando a “marola” em pelo menos uma ressaca.

12/01/2009 02h50

Por Fernando de Holanda Barbosa Filho

Professor da Fundação Getulio Vargas e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE-FGV)

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