Cadernos de Seguro

Artigo

A Nova onda K e o início de um severo inverno

[B]Luis Felipe Lebert Cozac[/B]

A economia é cíclica: a atividade econômica flutua ao redor de sua tendência de longo prazo. Essas flutuações da atividade econômica são geralmente medidas em termos de variação do Produto Interno Bruto de um país, mas outros agregados macroeconômicos, como índice de preços, taxas de juros e de desemprego, são vitais para se ter uma completa visão dos ciclos. Sem falar das oscilações do valor de empresas cotadas nas bolsas de valores.

As flutuações econômicas provocam também o caráter cíclico na intervenção do Estado na economia. Por todos esses motivos, o estudo dessas flutuações é tema de grande importância para economistas de várias épocas e tendências.

Japão, Alemanha e toda a zona do Euro estão hoje tecnicamente em recessão: por dois trimestres consecutivos, o produto apresenta contração. Os Estados Unidos, por enquanto, anunciaram apenas um trimestre de (forte) contração. Mas a flutuação e crise atual vêm sendo anunciadas como catastróficas, ao mesmo tempo em que é claro um forte sentimento de esperança em relação ao novo presidente norte-americano (seria ele o “salvador”?). São comuns, em períodos de turbulência, uma exacerbação na mídia e um sentimento de pânico amplificado e generalizado na audiência (que gera o conhecido “efeito manada” nas bolsas). Desinformação, pouca ponderação e até um certo grau de terrorismo recheiam análises e notícias, alimentando uma ansiedade coletiva no público, que acompanha a crise em “real time” e “on line”. Isso não significa que a crise não seja grave, mas como analisar de maneira imparcial o que estamos vivendo se sequer podemos contar com o benefício do tempo e da história? Como escreveu Jose Ortega y Gasset: “Yo soy yo y mi circunstancia”…

Então, nos resta a perspectiva de longo prazo. Ao “olhar em perspectiva”, o resgate de temas cíclicos pode enriquecer o debate, facilitar a identificação dos elementos que são específicos a essa crise e também ajudar a esclarecer como se inter-relacionam dois mundos distintos e aparentemente desconexos: o mundo financeiro, com sua vertente especulativa, e o mundo real da produção e do consumo. Desse resgate aqui tratamos.

Em 1939, Joseph Schumpeter, em sua célebre obra Business Cycles, citou inúmeras vezes três tipos distintos de ciclos quanto à periodicidade, que foram documentados e testados matematicamente. Os três foram batizados com o nome de seus formuladores: Kitchin (curto, de 3 a 5 anos, ligado à variação dos estoques), Juglar (médio, de 8 a 10 anos, ligado à variação dos investimentos em máquinas e equipamentos) e, finalmente, os ciclos Kondratieff (longos, de 40 a 60 anos). Os ciclos de longo prazo (ou ondas “K”) são associados a importantes inovações tecnológicas que trouxeram grandes mudanças estruturais. É interessante que existam registros de ciclos de catástrofe e renovação durando cerca de 50 anos tanto na cultura maia pré-colombiana quanto na história dos antigos israelitas.

Em se tratando das ondas “K”, a primeira onda longa teria sido marcada pela Primeira Revolução Industrial, por volta de 1785, e durado até 1845. Baseou-se na indústria têxtil, de ferro e nas máquinas a vapor. A segunda onda longa teve inicio em 1845, com a Segunda Revolução Industrial, baseada em investimentos em ferrovias e expansão da indústria do ferro e do aço, e teria durado até 1900. A terceira onda, compreendendo o período 1900-1950, fundamentou-se na expansão do uso da energia elétrica e engenharia química e no surgimento da indústria automobilística, a partir do motor de combustão interna. Após a terceira onda “K”, o consenso entre os teóricos se esvanesce, e o componente geopolítico entra em cena: a quarta teria se iniciado em 1950. Foi marcada pela guerra fria (até a queda do muro de Berlim, em 1989) e também pelo aparecimento e pela expansão generalizada do uso do transístor e da eletrônica, da indústria petroquímica e da aviação civil.

Para muitos autores, o mundo encontra-se hoje no início do quinto ciclo de Kondratieff, baseado na era da tecnologia da informação e globalização. O aparecimento da internet e do comércio eletrônico, a partir de 1990, marca o componente tecnológico, e o atentado às torres gêmeas em 2001, o componente geopolítico. O pico desse ciclo pode ter sido atingido já na virada do século, após o bug do milênio e o estouro da bolha da internet, mas os fatos e a crise de 2008 podem ser a marca do início de um severo inverno.

Também atual é a explicação da escola austríaca (normalmente associada a Von Mises e Hayek, que previram a severa depressão dos anos 30) sobre a relação dos ciclos com a inflação e o crédito: a ocorrência de inflação com baixo crescimento (como ocorreu nos períodos de forte aumento do preço do petróleo – em 1973 e neste milênio) é uma forma de destruição de capital, levando a uma posterior deflação (como em 1930 e eventualmente no período que vai se seguir à atual queda dos preços das comodities agrícolas).

Quanto ao crédito, uma política de juros baixos estimula a tomada de recursos e, conseqüentemente, aumenta a oferta de moeda e alavanca os investimentos. A decisão por investir é tomada com um rigor mais baixo e com expectativa de retorno maior. Mas o fato é que, neste boom monetário, as oportunidades de investimentos lucrativos são cada vez mais escassas. A alocação ineficiente do capital, investido em atividades com lucratividade baixa ou negativa, será corrigida com uma contração posterior do crédito, gerando recessão. Essa descrição não é muito diferente do que está ocorrendo com a chamada crise das hipotecas, a partir de 2007: o crédito artificialmente abundante subsidiou um nível de investimento insustentável em termos de retorno, e agora sentimos os efeitos contracionistas para o ajuste desse desequilíbrio.

Estudos empíricos, descritos em artigos como “Housing IS the Business Cycle” (O imobiliário É o ciclo econômico), de Edward Leamer, tratam justamente da importância do setor imobiliário na explicação das recessões. Uma exaustiva análise estatística corrobora o peso determinante do mercado imobiliário nas oito desacelarações do PIB norte-americano no pós-guerra. Em períodos de crescimento, ao contrário, esse peso é bem menos relevante.

A crise atual, por sua vez, tem origem no mercado imobiliário. A recessão do início do milênio, agravada pelo ataque às torres gêmeas, trouxe uma injeção de dinheiro pela autoridade monetária norte-americana, que ajudou a estimular o setor imobiliário, elevou os preços dos imóveis e gerou expansão da atividade construtiva. Mas a intensidade da crise atual e o tempo que esta demorou a se manifestar estão ligados ao “empacotamento“ financeiro que as hipotecas sofreram: diversos fundos de investimento e de derivativos continham os famosos subprimes em suas carteiras, sem que o público, e principalmente as agências de rating, tivessem conhecimento da qualidade dos créditos que embasavam tais fundos. Falhas de supervisão de mercado também podem explicar por que se demorou tanto a detectar as exposições dos bancos.

A intensidade e a severidade da crise atual ainda são desconhecidas, e os efeitos sobre a economia brasileira (“marolinha” ou tsunami) também. Mas em termos globais, a crise pode ensejar uma mudança mais profunda na estruturação do sistema econômico financeiro mundial. A relação do Estado com o ambiente econômico e temas de regulação e controle serão provavelmente questões relevantes e deverão apresentar fortes mudanças. Não é exagero considerar que um novo arranjo institucional de controle, supervisão e intermediação poderá emergir dessa crise. Pelo menos é o que refletem as lentes do ciclo longo.

12/01/2009 02h57

Por Luis Felipe Lebert Cozac

Bacharel em Economia pela FEA-USP e em Administração de Empresas pela EAESP-FGV, mestre e doutor em Economia de Empresas pela EAESP-FGV. Atualmente, é diretor geral da Luizaseg Seguros

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