Cadernos de Seguro

Entrevista

“A crise é fruto da falta de regulamentação norte-americana”

[B]Bernardo Weaver[/B]

O consultor de seguros do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) Bernardo Weaver não está lá muito otimista em relação ao período em que o mundo continuará sofrendo os impactos dessa crise. Mas ele não perde o bom humor. “Eu acredito que essa crise vai muito bem, obrigado. Ela está forte, saudável, vistosa, crescendo bastante, e deve ficar por aí por muito tempo”, prevê. Sem pestanejar, Weaver aponta o principal causador dessa turbulência financeira internacional: “A crise é fruto da falta de regulamentação norte-americana”, ressalta ele. Segundo o consultor brasileiro, o pior ainda está por vir, e atingirá principalmente os Estados Unidos, que “enfrentaram uma redução do PIB da ordem de 4% no último trimestre de 2008, e deverão perder mais 2% no primeiro trimestre de 2009”, analisa.

Ao contrário de respeitadas instituições, como a Merril Lynch e o site RGE Monitor (de Nouriel Roubini, um dos pouquíssimos economistas a alertar sobre a crise tempos antes dela acontecer), que apontam Brasil e Índia como os mercados emergentes que devem sofrer menos com a crise, Weaver garante que esses países também não terão descanso. “O Brasil sofrerá porque tem um mercado bastante líquido e volátil, por causa da falta de fundamentos sólidos que existia até bem pouco tempo.”

Para Weaver, a situação ainda vai piorar muito, e nem o novo “presidente-estrela” dos EUA, Barack Obama, será capaz de oferecer uma solução eficaz e rápida. “Essa crise será alimentada por securitizações, como as de recebíveis de cartões de crédito e de financiamento de automóveis. Disso, o nobre Obama nem entende direito, e tem pouca chance de conseguir resolver”, opina. Para ele, a solução dessa crise está onde ela começou. “O próprio mercado financeiro terá que voltar a acreditar na valoração de seus ativos para poder voltar a emprestar dinheiro ao setor produtivo”, analisa.

De Washington (EUA), Weaver, carioca e rubro-negro, concedeu à Cadernos de Seguro a entrevista a seguir, com exclusividade.


[B]Cynthia Magnani[/B]


[I][B]Quais foram os principais fatores motivadores dessa crise?[/B][/I]

Em uma frase: a falta de regulamentação. O mercado financeiro é uma atividade crucial para a vida moderna, mas ela deve ser bem regulamentada. Eu já fui regulador da parte de solvência de instituições financeiras. Você ganha um salário para evitar que aconteçam problemas sérios no mercado. É sua única grande tarefa. O resto é monitorar o mercado, fazer relatórios, mas o que você não pode deixar é que o temido e famoso \"risco sistêmico\" se espalhe pelo país, muito menos pelo mundo...

O risco sistêmico é o risco de que a falência ou a falta de liquidez de um player do mercado financeiro espalhe falta de confiança, liquidez ou solvência para vários outros investidores, de maneira generalizada. Foi isso o que aconteceu nos Estados Unidos. É a única coisa que não se pode deixar acontecer, mas o Alan Greenspan e o Ben Bernanke deixaram se espalhar.

O Partido Republicano Americano, nas eras de Ronald Reagan e Bush pai, não somente pregou a desregulamentação dentro de seu país como também a exportou para outros lugares. Era o chamado “Consenso de Washington”, que foi propulsionado pelo FMI na parte de políticas públicas, como condição para empréstimos. A tese financeira do fim da Guerra Fria era que, se alavancássemos os investimentos, poderíamos chegar a posições de crescimento econômico tão grandes que os países comunistas se sentiriam muito pobres. Até então, o sistema bancário americano era bem fracionado, desde a regulamentação do pós-depressão, nos anos 30. Só havia normas importantes de 1933,1934, 1939, 1940, até a vinda da Lei Sarbanes- Oxley, em 2002. Até os anos 80, só existiam bancos estaduais nos Estados Unidos. Em 1982, o Depository Institutions Act permitiu que as cadernetas de poupança fizessem empréstimos comerciais. Em 1985, a Suprema Corte decidiu que a atividade bancária interestadual não era ilegal.

No final dos anos 80, época em que começou o Consenso de Washington, o ranking dos maiores bancos do mundo era todo povoado por bancos japoneses. De acordo com a revista Fortune, que faz rankings de bancos e empresas no mundo todo, o Japão tinha oito dos dez maiores, e os outros dois eram franceses. Os Estados Unidos eram muito prudentes na questão de risco sistêmico. Vale a pena lembrar que o Japão não dá aula pra ninguém de regulação de sistema financeiro, já que eles quebraram há mais de 20 anos, e desde então não conseguem crescer mais do que 1% ao ano. Aproveitando o argumento da desregulamentação, os Estados Unidos começaram a permitir uma concentração bancária um pouco mais forte, criando bancos nacionais no início dos anos 90, o que já aumentou a concentração de risco no mercado. Isso é similar ao que está acontecendo no Brasil, com a fusão do Unibanco e do Itaú. A diferença é que, num período de crise como o que o Brasil está passando agora, pode-se permitir uma maior concentração por um curto período.

Dez anos depois, o governo americano criou regras permitindo que bancos de varejo controlassem não apenas seguradoras – o que sempre foi vetado –, mas também empresas imobiliárias e de investimentos. Tudo isso ficou debaixo da asa das FHC – as financial holding companies –, criadas em 1999 pela Lei GLB – Gramm-Leach Bliley Act. No ano seguinte, o governo americano criou a Lei de Modernização Commodity Futures 2000 – a Commodities Futures Modernization Act, de 2000 –, que trouxe a figura do investidor sofisticado e as operações de derivativos, ambos isentos de regulação. Foi até mantida essa relação de dois reguladores separados – SEC –, regulando valores mobiliários, e a Commodities Trading Commission – CTC –, regulando derivativos. Um artigo publicado recentemente no Wall Street Journal trata dessa questão e sugere que a criação de um regulador unificado seria o começo da solução para a crise. Reguladores descentralizados com jurisdição fragmentada agravam o risco sistêmico, assim como poucos players do mercado financeiro, concentrando muito poder. Os Estados Unidos fizeram o contrário do que é certo: deveriam concentrar as normas em um regulador com visão sistêmica do todo e deixar os players – cuja eventual falência não ameaçasse o mercado como um todo – com pouco poder de concentração de risco.

A falta de regulamentação foi progressiva e tudo isso aumentava a concentração de riscos – e conseqüentemente, o risco sistêmico. Na primeira oscilação forte, o mercado desabou. Estava só faltando um aumento brusco nos juros, o que o coitado do Bernanke, novato no cargo, fez 17 vezes em dois anos, de 1% ao ano em 30 de junho de 2004 para 5,25% em 29 de junho de 2006. O mercado imobiliário atingiu seu ápice em agosto de 2005, mas o Bernanke ainda passou quase um ano subindo. E o caldo queimou, a economia desandou e tudo ficou fora de foco. E o Bernanke pensando que o problema era a inflação e que a economia ia experimentar um pouso suave...

Politicamente, o que causou a crise foi a desregulamentação. O discurso de desregulamentação e fim da burocracia se focava, em 99% dos casos, em diminuir o número de papéis, carimbos e reconhecimentos de firmas. Em 1% dos casos, mencionava-se o real e grande objetivo final: a desregulamentação (ou diminuição) de reservas.

A desregulamentação ou diminuição de reservas permite a alavancagem desenfreada das posições de portfólio de investidores, o que gera um aumento de risco em cada operação, e conseqüentemente, em todo o sistema. A redução de reservas era apenas 1% da conversa de desregulamentação, mas representava 99% do real interesse dos investidores. Alavancagem é o que permite aos investidores mais ousados ganhar mais dinheiro. Tem apenas um pequeno detalhe: quando o mercado cai, quem está alavancado se afunda mais rápido e mais severamente. Um mercado sem regulamentação forte de reservas alavanca seus ganhos, mas também se expõe ao risco extremo de que mais posições estejam descobertas em caso de retração de atores do mercado.

Quando o FED – o Banco Central dos Estados Unidos – começou a subir as taxas de juros, as pessoas que tinham contratos de hipoteca com juros e prestações mais altos começaram a dar calote (ou default). A essa fatia do mercado, Wall Street chamava de “subprime”, um eufemismo, equivalente a “abaixo de excelente”. Nesse momento, todos os outros títulos e operações financeiras ligadas a essas transações, como mortgage backed securities – MBS – e os conseqüentes credit default swaps – CDS –, começaram a ser reavaliados.

MBS são grupos de hipotecas colocadas em pacotes e vendidas no mercado secundário. CDS são derivativos que passam o risco de calote para outro tomador, no caso, uma seguradora monoliner. 90% das operações de CDS tinham na ponta, como vendedor, a AIG, seguradora americana que pegou emprestado a quantia de US$ 150 bilhões do governo americano no dia 10 de novembro de 2008, de acordo com matéria do New York Times. Além dos MBS, existem os títulos ao quadrado, que replicam a taxa de retorno do MBS original. O mesmo existe para os CDS. Depois, em 2005, eles inventaram os MBX e os CDX, que são os índices que seguem a média do mercado. Ou seja, os contratos futuros começaram a ser rastreados por índices, que alavancaram ainda mais as perdas ocasionadas pelo default no contrato original.

Assim, quando os mutuários americanos começaram a dar calote nos contratos originais, os investidores não sabiam, e até hoje não sabem, qual é o “real” valor dos títulos em seus portfólios. Por isso, não sabem quanto, nem qual é o tamanho de seus passivos. Assim, têm que colocar dinheiro no seu capital, porque correm risco de falir se os passivos continuarem crescendo.

Por outro lado, como esses bancos estavam super alavancados, eles agora têm que construir suas posições de uma maneira conservadora. Por isso, eles não podem emprestar dinheiro, pois esse dinheiro tem que ficar no caixa para garantir futuras obrigações (passivos). Se não emprestam dinheiro, as empresas não têm como investir, e se elas não investem, as pessoas não conseguem trabalho, a produção diminui e a economia entra num ciclo recessivo, que só vai terminar quando os bancos conseguirem acertar as suas posições.

[I][B]Quais foram os primeiros países a entrar em dificuldades? Quais foram os mais afetados até o momento?[/B][/I]

Obviamente, os Estados Unidos. A crise é fruto da falta de regulamentação norte-americana. O presidente do FED, que ficou no poder pelos últimos 18 anos e meio, Alan Greenspan, assumiu no congresso americano que fez besteira. Ele falou que errou, mas não assume a culpa toda (claro, ele não quer ir preso). Ele foi, talvez, um dos principais líderes da onda de desregulamentação e alavancagem para investidores na economia. Essas idéias são muito boas quando a economia está subindo, mas também geram uma queda muito forte quando uma classe de ativos começa a cair. Isso ocorre porque a diferença de valoração de uma classe de ativos para as demais pode crescer muito, o que permite que as correções do mercado sejam mais severas e contaminem outras partes da economia não ligadas diretamente àquela classe de ativos, ou ao mercado financeiro como um todo. A isso, o povo dá o nome, vulgarmente, de crise, bolha, etc.

Respondendo à segunda pergunta, todo o mundo vai sofrer ou está sofrendo. A Europa sofre pelos mesmos motivos dos Estados Unidos, mas também sofrem os países mais pobres, como os países em desenvolvimento com maior liquidez financeira. Assim, o Brasil, México, África do Sul, Índia, China, Rússia, Leste Europeu, até a Islândia, que estava muito alavancada, sofreram muito. O Brasil sofre, especialmente, porque tem um mercado bastante líquido e volátil, por causa da falta de fundamentos sólidos que existia até bem pouco tempo. Apenas com o Meirelles conseguimos construir reservas razoáveis. Todavia, Nouriel Roubini, em seu respeitado site RGE Monitor, aponta, citando a Merril Lynch, o Brasil e a Índia como os mercados emergentes que devem sofrer menos com a crise.

A Ucrânia perdeu ¾ do valor do seu mercado de ações. Esses países não perderam dinheiro por causa de fraca regulamentação. O problema nesses países é que os investidores estrangeiros tiveram que recompor posições em seus portfólios em Wall Street, e por isso liquidaram posições no exterior. Os países que têm maiores mercados sofreram mais, porque é mais fácil para os investidores vender ações aí. Não existe “culpa” dos países subdesenvolvidos nisso. O importante é que eles consigam entender que a desvalorização de seus ativos não é culpa de fatores macroeconômicos internos. O Brasil tem um presidente de Banco Central de encher os olhos. Temos que ter calma e agüentar a crise, que ainda nem começou no Brasil. Acho que ainda vai piorar muito. Graças a Deus temos o Meirelles, que entende de mercado e pode conseguir nos manter relativamente protegidos. Mesmo assim, vamos sofrer muito ainda. A não ser que ele seja mágico. Mas mágico, eu aprendi quando era criancinha, não existe...

[I][B]Essa crise continuará afetando o mundo nos próximos anos?[/B][/I]

Sim. Eu acredito que essa crise vai muito bem, obrigado. Ela está forte, saudável, vistosa, crescendo bastante, e deve ficar por aí por muito tempo. Acho que vai atravessar muito bem esse ano de 2009, talvez até batendo alguns dos recordes do Michael Phelps...

A crise deve acabar de verdade em 2011, 2012. Os Estados Unidos enfrentaram uma redução do PIB da ordem de 4% no último trimestre de 2008, e deverão perder algo parecido com 2% no primeiro trimestre de 2009, de acordo com o Wall Street Journal. Segundo a reportagem do jornal, a crise só deve começar a melhorar entre o fim de 2009 e o início de 2010. Eu sou mais conservador na minha previsão: acho que há 10% de chances dela acabar em 2009, 20% em 2010, 30% em 2011, outros 30% em 2012, e uns 10% de acabar em 2013.

[I][B]Que modificações ela provocará na economia global?[/B][/I]

Modificações? Talvez, muitas. Existe um analista que tem um programa aqui nos EUA, na TV a cabo de negócios financeiros (MSNBC), que é muito respeitado, e é realmente muito bom. Eu vou repetir o conselho que ele deu nas últimas semanas: “Venda todas as suas ações e coloque o dinheiro no colchão. Daqui a cinco anos você volta para o mercado, porque do jeito que está, não há condições do investidor individual se beneficiar. É o fim do mercado financeiro como nós o conhecemos. O que vai surgir, ninguém sabe.”

[I][B]Esse abalo global nas economias pode ser comparado à crise de 1929? [/B][/I]

Sim. Um grande amigo no Banco Central da França, o Pierre-François, que era advisor do board do FMI, reclamava do tamanho da porção da comida aqui nos EUA durante um almoço. No início de 2008, ele me explicou, com um copo de vinho na mão, que a crise estava sendo comparada à Grande Depressão. Eu já respeitava a opinião dele e do pessoal do FMI antes, mas agora que já passamos por esse outubro negro de 2008, eu os respeito mais ainda.

[I][B]Quais deverão ser os reflexos da eleição de Barack Obama na crise financeira mundial?[/B][/I]

Nenhum. Apesar de pessoalmente estar muito feliz pela eleição do Obama, acredito que ele não vai conseguir fazer nada para alterar essa situação. Imagine ele falando aos bancos: “Emprestem dinheiro agora!” Os bancos vão responder: “Não.” Acabou a conversa. A crise é financeira, foi causada por falta de regulamentação adequada e o próprio mercado financeiro vai ter que voltar a acreditar na valoração de seus ativos para poder voltar a emprestar dinheiro ao setor produtivo.

Muito se fala das agências de rating, que tinham conflitos de interesse na acreditação desses títulos. A verdade é que elas contribuíram muito para a crise, mas não têm o dever de regular o mercado. Os reguladores, como SEC, FED, CTC, etc., é que devem manter o mercado solvente, sem correr o grave risco sistêmico.

Os próximos elementos que vão alimentar a crise são securitizações de recebíveis de cartões de crédito, securitização de financiamento de automóveis e qualquer coisa que tenha sido securitizada cujo valor de origem seja afetado por uma quantidade maior de defaults do mercado consumidor norte-americano. Disso, o nobre Obama nem entende direito, e tem pouca chance de conseguir resolver. Acho que só o mercado mesmo pode resolver, daqui há um bom tempo.

12/01/2009 05h26

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