Cadernos de Seguro

Artigo

Do medo ao esquecimento


[B]René Hernande V. Lopes[/B]

Outras inundações já ocorreram em Santa Catarina. O que teria acontecido para que tivéssemos um efeito tão desastroso nas inundações de fins de 2008 naquele estado? Perguntas existem e não são poucas. As respostas, no entanto, soam, na maioria das vezes, como desculpas à inação.

Esses fenômenos estão entre os maiores causadores de perdas de vidas e de patrimônio. Apesar da presença constante, ainda não nos adaptamos às suas aparições. Talvez porque confiemos demais em nossa tecnologia ou porque tenhamos a ilusão de que já os vencemos com alguma intervenção realizada no passado com vistas a contê-los.

As causas das inundações, quando observadas em âmbito mundial, normalmente se devem à elevação fluvial, às tempestades e às ressacas. Ocasionalmente podem ser originadas por outros fenômenos, como tsunamis, lahares (avalanche de lama resultante de mistura de água e material vulcânico), etc. No Brasil, as inundações são causadas, na imensa maioria dos casos, por elevação fluvial e/ou tempestades.

O evento de Santa Catarina, em fins de 2008, apesar da intensidade gravosa, não foi o único a tirar a vida de um grande número de pessoas. Outros já ocorreram e com mortandade ainda maior.

As inundações são fenômenos com grande irregularidade em suas aparições. Quando menos se espera elas retornam com toda força e capacidade de destruição. Entre uma e outra ocorrência pode haver um longo intervalo de tempo: décadas ou até séculos. Essa característica possui um desdobramento: logo após a ocorrência, a lembrança de uma inundação estará aquecida, porém, com o passar do tempo, a memória de seus efeitos será “apagada” – o que contribui, inclusive, para que uma ação que atenue os efeitos de futuros eventos não seja percebida como prioridade pelo poder público, nem tampouco pelos prováveis afetados.

O geógrafo Moacyr Duarte, pesquisador sênior da Coppe/UFRJ, defende a criação de um mapa que indique datas e regiões suscetíveis aos riscos naturais. O desdobramento desse mapa, segundo o geógrafo, seria um outro em que as informações, como a concentração populacional e de bens, incluindo-se aí a industrial, poderiam ser sobrepostas. Isso resultaria em conhecimento sobre onde há maior probabilidade de ocorrer mais prejuízos. Infelizmente, como lamenta o geógrafo, esse mapa ainda não existe no Brasil.

O pesquisador ressalta, ainda, que há uma grande produção de estudos de impacto ambiental requerida pelo poder público, mas que estes não são utilizados para produção de conhecimento sobre a região em questão. Ou seja, há dados e informações, mas não há disseminação desses recursos para a geração de conhecimento que possibilite uma melhor resposta aos desastres.

Ao contrário do que diz Moacyr Duarte, a coordenadora do Grupo de Estudos de Desastres Naturais da Universidade Federal de Santa Catarina, Lúcia Herrmann, afirma que já foi produzida, desde 1980, uma grande quantidade de teses e monografias sobre inundações, o que, segundo ela, garantiria uma ação efetiva do poder público no sentido de minimizar os efeitos danosos desses fenômenos naturais severos. Mas, em sua opinião, não há entrosamento entre o poder público e o meio acadêmico.

Aparentemente, esses dois profissionais tão gabaritados – Moacyr Duarte e Lúcia Herrmann – estão em desacordo. Entretanto, uma leitura mais atenta leva à conclusão de que nos falta, ainda, muito conhecimento. Contudo, o que temos é suficiente para uma ação mais eficiente do poder público, para atenuar os efeitos dos fenômenos naturais severos e desastrosos.

Nota-se, nesse ponto, a semelhança com o Katrina. Não faltaram informações para diminuir o impacto, o que faltou foi uma ação coordenada pelo poder público a partir das informações disponíveis. Nesse caso, a geração de mais conhecimento não resolveria o problema, pois já há um grande estoque de informações. O que falta é uso.

Na mesma direção do que defende Moacyr Duarte está (em planejamento) a criação de um mapa de riscos, para que o setor de seguros possa adequar, de forma mais qualificada, a cobertura de seguros à realidade. Dessa forma, poderá ser concedida (ou negada) a cobertura a uma propriedade com base nesse mapa.

Nesse caso, teríamos uma aplicação de conhecimento já acumulado, haja vista que o fundo da questão é o lucro.

De qualquer forma, a criação de um mapa de riscos confiável só se tornará realidade após um árduo trabalho, pois merecerá estudos aprofundados e cooperação interdisciplinar de áreas como geografia, climatologia, meteorologia, geologia, estatística, etc.

Os desastres com características catastróficas estão grandemente ligados a como o poder público atua, com relação, por exemplo, à ocupação de determinadas áreas – não raras vezes, impróprias para a habitação. A indústria de seguros poderá influenciá-lo, mediante conscientização de seus clientes quanto à importância da prevenção, de forma que, com o passar dos anos, esta se torne um fato social.

Não obstante, a realização de um seguro é “apenas” uma das medidas para manutenção do patrimônio que foi sinistrado. E mesmo que seja possível para a indústria securitária apresentar uma cobertura comercializável, ela poderá não ser suficiente para a manutenção saudável do equilíbrio econômico de nossos cidadãos. Talvez o mapa de riscos seja a maior contribuição que, nesse momento, possa ser dada pelo setor à sociedade brasileira.

Portanto, por enquanto, cabe ao Estado o papel de coordenador da ação que visa a atenuar os danos por inundações. Essa ação se faz presente principalmente através do correto registro das ocorrências, das campanhas de informação, do diálogo com o meio acadêmico, da construção de obras de contenção de inundações e do controle de uso do solo e das construções.

Pois, como vimos, existem grandes estoques de informação e de conhecimento sem aplicação pelo poder público. Entretanto, não há um uso adequado desse conhecimento no combate às inundações e seus efeitos, incluindo-se aí a prevenção. Passado o problema, o resultado é o esquecimento.

Infelizmente, a próxima inundação nos reaquecerá a memória.

19/03/2009 11h56

Por René Hernande V. Lopes

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