Cadernos de Seguro

Artigo

Determinísticos ou estocásticos

[I]A importância da análise de cenários no setor segurador[/I]

[B]Kurt Karl[/B]

Cenário é uma fotografia de um resultado futuro plausível. A análise de cenários facilita as decisões comerciais, levando em consideração os diversos potenciais de desdobramentos e possíveis acontecimentos futuros no ambiente de negócios. Ela é usada para estudar o resultado de acontecimentos com alto grau de incerteza e seus efeitos sobre a rentabilidade ou posição competitiva de uma organização.

Os cenários podem ser determinísticos ou estocásticos. Geralmente, uma análise baseada em cenários determinísticos leva em consideração apenas alguns cenários, que podem ser históricos ou hipotéticos. O cenário histórico reflete um evento significativo ocorrido no passado, como a crise da dívida russa, que foi uma recessão específica, ou a quebra do mercado acionário em 1987. O cenário hipotético reflete um evento significativo que é considerado plausível, mas que ainda não ocorreu. Cada um deles tem suas vantagens.

O cenário histórico tende a ser mais articulado e, como tal, exige menos informações e arbítrio gerencial. As limitações dos cenários históricos incluem sua inflexibilidade e a incapacidade de levar em conta novos desdobramentos nos mercados financeiro e segurador. Os cenários hipotéticos, por outro lado, podem ser adaptados ao perfil de risco de uma empresa, mas costumam requerer trabalho intensivo e exigem substancialmente mais discernimento. Geralmente, as empresas envolvem gerentes de negócios e especialistas, como economistas, na projeção de cenários hipotéticos. É preciso um cuidado especial para assegurar que o cenário reflita choques de magnitude plausível, bem como a correlação entre as diferentes variáveis.

Os cenários estocásticos são baseados em simulações – normalmente entre mil e um milhão – e são orientados pelos ajustes aos parâmetros e variáveis de entrada, com base em sua distribuição histórica e covariância. As mudanças em determinados fatores de risco – por exemplo, taxas de câmbio, juros e preço das ações – podem ser montadas com o uso de análise quantitativa, modelagem estocástica ou capacidade de julgamento. Esses fatores de risco podem ser aplicados a uma ou mais linhas de negócios, classes de ativos ou passivos; entretanto, pode ser necessária a sua agregação para reduzir a quantidade de componentes modelados.

Os cenários podem ser direcionados por eventos ou problemas decorrentes de uma carteira de linha de negócios ou riscos de uma companhia. Os cenários direcionados por eventos são baseados em eventos plausíveis e na maneira como eles poderiam afetar uma empresa. Muitas vezes, esses cenários são desenvolvidos por solicitação da alta administração, algumas vezes em resposta às últimas notícias, como queda na taxa de juros, volatilidade no mercado acionário ou grande evento catastrófico. Os cenários direcionados por carteira são orientados pelas vulnerabilidades da carteira detida por uma empresa. Os gerentes de risco trabalham em sentido contrário para formular cenários plausíveis em que essas vulnerabilidades sejam acentuadas. Por exemplo, uma seguradora do ramo vida com exposição elevada ao risco de mortalidade poderia desenvolver cenários envolvendo pandemias.

Embora na maioria das vezes sejam quantitativos, os cenários podem ser usados para desenvolver visões alternativas do futuro destinadas a estimular o raciocínio sobre qual seria a melhor reação de uma companhia a mudanças fundamentais no ambiente de negócios. Esses cenários, desenvolvidos por meio de um processo de entrevistas internas e externas, são qualitativos e descritivos.

A maioria das seguradoras usa a análise de cenários para desenvolvimento de estratégias e gerenciamento de riscos.

A análise de cenários é de particular importância para as seguradoras, já que a sobrevivência das empresas desse setor depende da capacidade de avaliar riscos e definir preços adequadamente. Para gerenciar a ampla gama de riscos que enfrentam – muitos dos quais inter-relacionados –, as seguradoras costumam desenvolver cenários para gerenciamento de riscos, decisões sobre subscrição e definição de preços, planejamento estratégico e gestão do capital. A análise de cenários possibilita às seguradoras o desenvolvimento de estratégias de atenuação e planos de contingência para tais eventos.

Os cenários são particularmente úteis para seguradoras que buscam aprimorar o gerenciamento do capital, o que, em última análise, melhora o retorno sobre o seu patrimônio líquido. As seguradoras podem usar cenários para determinar a adequação do capital e selecionar o programa de resseguros ideal em função dos riscos de subscrição e investimento que enfrentam. Por fim, as decisões de alocação de capital e de limitação de riscos podem ser determinadas por meio do uso de modelos. Isso pode incluir a alocação de capital por linha de negócios ou tipo de risco.

13/07/2009 04h48

Por Kurt Karl

Economista-Chefe e Diretor de Análise Econômica & Consultoria da Swiss Re na América do Norte, Doutor pela Princeton University

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