Cadernos de Seguro

Artigo

Onda de mudanças, sob o fio da navalha

[I]Vida após 80 anos: a evolução do seguro de pessoas e os desafios que esperam as seguradoras na cobertura ao brasileiro da “quarta idade”[/I]


[B]Lúcio Marques[/B]

Em setembro de 2007 escrevi um artigo que foi tema de capa da Cadernos de Seguro, fazendo uma análise sobre os cenários e perspectivas para o seguro de pessoas conseguir atender a um brasileiro cada vez mais influenciado por novas tecnologias, alimentação saudável e exercícios físicos, e que viverá acima dos 80 anos.

É primordial ressaltar que precisamos motivar o crescimento do seguro de pessoas e adequá-lo ao perfil brasileiro do Século 21. Em 1994, quando do surgimento do Plano Real, o mercado de seguros apresentou um crescimento bastante razoável, para não dizer ótimo, no segmento de pessoas. No período inflacionário, com uma inflação na estratosfera, o seguro de vida individual, o chamado “dotal 10, 20”, foi deixado de lado pelo alto custo. Então, com a estabilização econômica, apareceram no mercado as chamadas apólices abertas, que trabalharam muito com cálculo pela faixa média de idade do grupo. Com o advento das resoluções 302 e 317 surgiu o enquadramento, fazendo com que essas apólices sofressem alterações e fossem enquadradas em faixas etárias.

O cenário, então, enseja mudanças com transformações radicais nas estruturas dos seguros e das seguradoras, e como toda mudança é difícil de ser aceita! A mudança está em toda parte, e o consumidor que surgiu no horizonte foi aquele advindo da promulgação do Código de Defesa do Consumidor, que busca os melhores serviços, as melhores coberturas e produtos que satisfaçam suas necessidades e possam determinar se elas estão compatíveis com o que o mercado oferece. Esse consumidor pós-Código de Defesa do Consumidor passou a ser mais exigente e também mais preocupado em dar e ter informações mais precisas sobre os produtos que está adquirindo.

A tendência, analisando o mercado de seguro de pessoas, é que continuem aparecendo novas coberturas de risco, novos produtos com taxas e condições mais acessíveis ao consumidor brasileiro.

Portanto, acredito que, apesar de todos os entraves e discussões ocorridas, o mercado de seguro de pessoas é o que tem maior possibilidade de crescer, pois a gama de produtos novos cobrindo riscos até então não aceitos tem levado ao consumidor um novo alento em termos de cobertura. Passada a fase de adaptação às novas regras, acredito que, de modo geral, as mudanças foram benéficas, e a tendência é continuar crescendo e aumentando a poupança de longo prazo. Irão entrar em vigor os novos planos dotais, seguros de vida individuais que eram bastante comercializados nas décadas de 60 e 70.

Se considerarmos também a abertura do mercado de resseguros, o consumidor provavelmente terá um leque muito maior de produtos ainda não comercializados no mercado nacional, que deverão ser trazidos pelos grandes resseguradores, ampliando não só a oferta de produtos, mas apresentando, em muitos casos, taxas mais compatíveis.

Alguns aspectos me parecem de suma importância, se aprofundarmos a análise do que poderia ocorrer num futuro próximo e também num período superior a 20 ou 25 anos. A expectativa de vida do brasileiro tem crescido em decorrência das inovações tecnológicas, práticas saudáveis de alimentação e exercícios físicos, que podem levar o Brasil ao seleto grupo de países que têm uma expectativa de vida superior a 80 anos, como Japão, Suécia, Canadá, entre outros.

De modo geral, as crianças se fortalecem graças às vacinas, aos antibióticos, à melhoria da nutrição e das condições sanitárias. Os idosos, por sua vez, se tornam mais longevos porque a medicina e as ciências farmacêuticas identificam e tratam mazelas próprias da idade com métodos de diagnóstico mais precisos, técnicas cirúrgicas mais apuradas e medicamentos mais eficazes. A terceira variável é o envelhecimento propriamente dito, um fenômeno de extrema complexidade sobre o qual a Ciência vem conquistando vitórias relevantes. O envelhecimento da população, decorrente da diminuição de fecundidade e do aumento da longevidade.

Idoso é o indivíduo com idade de 60 ou mais anos. A definição foi proposta pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1982 e adotada pelo Brasil pela Lei nº 8.842/94, que estabelece a Política Nacional de Saúde do Idoso.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que, em 2000, havia 605 milhões de idosos no mundo, e projeta para 2050 cerca de 2 bilhões, aproximando-se da população infantil (0-14 anos). Ainda segundo a OMS, até 2025 o Brasil será o sexto país do mundo em número de idosos, mas com uma proporção em relação à sua população aquém daquela vivenciada pelos países da OECD.

É evidente que um aumento significativo de idosos pressupõe que teremos mais despesas com saúde e previdência. Mas vamos considerar que não devemos ficar sufocados com essa possibilidade, pois isso deve induzir cada um de nós, indivíduos, a uma maior responsabilidade para com o nosso próprio futuro. É lógico que todos nós desejamos vidas mais longas, mas temos que considerar que, com qualidade, ela passa a ser muito mais longa. Alguns estudos na área médica indicam que com hábitos saudáveis uma pessoa pode diferenciar a idade cronológica em até 14 anos, considerando-se aí aqueles que praticam e adotam hábitos saudáveis, comparando-os com aqueles que não adotam.

Considerando essa onda de mudanças em relação ao aumento da expectativa de vida da população brasileira, o mercado segurador terá que modificar não só suas tábuas biométricas de mortalidade e sobrevivência, mas também sua capacidade inventiva, através dos seus departamentos de marketing, pois algumas ferramentas deverão modificar o quadro de vendas, não só centrado no corretor de seguros (que, aliás, deverá se modernizar e modificar, se transformando em um consultor de seguros), mas em outras formas de comercialização, como a Internet e novas metodologias.

Torna-se imperioso afirmar que algumas observações têm que ser bem analisadas pelo mercado. Hoje, se fizermos um estudo sobre a terceira idade, temos alguns dados bem interessantes: o maior quantitativo de pessoas que sobrevivem nessa área são pessoas das classes A e B, por diversas razões, entre elas a educação, a alimentação, o modo de vida e os exercícios físicos, pois são pessoas que têm um poder aquisitivo maior e podem, além disso, comprar e tomar seus remédios.

Os chamados idosos, aqueles que possuem mais de 60 anos, são em muitos casos, o esteio da família, pois ajudam, com seus rendimentos, a sustentar filhos e netos. Além disso, vários são aqueles que estão sendo chamados novamente a integrar os quadros de empresas que buscam experiência.

Esses fatores são importantes para que as seguradoras não deixem de lado um estudo mais aprofundado, considerando que eles são e serão um nicho de mercado bastante interessante. O mercado de seguros trabalha, na maioria das vezes, com idade-limite de 65 anos, e são pouquíssimas as seguradoras que concedem cobertura até 80 anos.

E precisamos começar a pensar nos indivíduos com idade acima de 80 anos. Os estudos científicos estão muito avançados. A cada dia que passa, novas descobertas são feitas e novos medicamentos e novos procedimentos cirúrgicos aparecem. Com isso, a longevidade das pessoas continua aumentando, e o mercado segurador precisa começar a discutir o assunto, pois não estamos preparados para essa mudança.

27/07/2009 06h15

Por Lucio Marques

Presidente do Clube de Vida em Grupo do Rio de Janeiro (CVG-RJ) e diretor Comercial da Cia de Seguros Previdência do Sul

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