Cadernos de Seguro

Artigo

Nunca é tarde para o primeiro passo

[I]Ações para se adaptar e lidar com os novos riscos provocados pelas mudanças climáticas[/I]

[B]Lutz Cleemann [/B]

Apesar da crise financeira sem precedentes que levou os governos no mundo todo a tomar iniciativas conjuntas para acelerar a recuperação econômica, o assunto “clima” se mantém como prioridade na agenda de discussões dos líderes de vários países, da comunidade científica, das empresas e organizações e das entidades da sociedade civil.

No início desse ano, o encontro da Cúpula Empresarial Mundial sobre Mudança Climática, que reuniu em Copenhague 500 importantes executivos de 47 países, propôs que a tão aguardada Conferência da ONU sobre as Mudanças Climáticas, programada para dezembro de 2009 na capital dinamarquesa, deverá firmar um acordo e estabelecer metas objetivas bem definidas para as reduções na emissão dos gases de efeito estufa e para o aumento dos incentivos econômicos às novas tecnologias “verdes”.

É inegável que, desde o início da era industrial, as atividades humanas interferiram no clima, não só em alguns locais pontuais como também em escala global. Hoje, o uso de combustíveis fósseis e a demanda crescente de energia para sustentar o nosso modo de vida afluente e os padrões de consumo atuais – os quais exigem uma profunda revisão – dão provas científicas concretas, atestando a contribuição do homem para o aquecimento global.

Os estudos sobre mudança de clima datam de mais de cem anos; no entanto, a preocupação científica em relação aos problemas causados pela mudança climática começaram nos anos 60, levando à primeira Conferência Ambiental da ONU em 1972, em Estocolmo.

Desde então, muitas outras reuniões multilaterais continuaram enfatizando a urgência do combate ao aquecimento global, tais como a de Toronto (1988), que resultaria na formação do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPPC), dois anos mais tarde, a do Rio de Janeiro (1992) e a de Quioto (1997), entre outras. Iniciativas conjuntas podem municiar os governos com informação, permitindo-lhes delinear políticas climáticas mais responsáveis.
Esses desdobramentos também levaram as empresas privadas a adotarem práticas sustentáveis nos seus negócios e na sua relação com as comunidades onde elas atuam.

O aquecimento global não pode ser visto como um fator isolado, pois vem acompanhado de um séquito de problemas que ameaçam o nosso planeta e a qualidade de vida das pessoas, como por exemplo, a intensificação das catástrofes naturais e dos fenômenos meteorológicos, a ameaça de extinção da biodiversidade, o esgotamento dos recursos naturais, os riscos para a produção de alimentos, bem como questões demográficas e migratórias.

Das 311 grandes catástrofes que ocorreram no mundo todo em 2008, causando prejuízos de US$ 269 bilhões, 137 delas foram eventos naturais, como tempestades, furacões e terremotos, que fizeram mais de 235 mil vítimas fatais. De acordo como o relatório da Swiss Re intitulado “Sigma – Natural catastrophes and man-made disasters in 2008” (Sigma – Catástrofes naturais e desastres causados pelo homem em 2008), os sinistros causados por eventos catastróficos no ano passado superaram os prejuízos registrados em 2004 e 2005 durante a estação de furacões mais devastadora da história. Dos US$ 52,5 bilhões pagos como valores de indenizações em 2008, US$ 44,7 bilhões (ou seja, 85%) foram atribuídos a adversidades naturais e climáticas.

Conforme os dados do relatório Sigma, as perdas por catástrofes naturais ligadas ao clima registradas em 2008 totalizaram 44 inundações, que causaram US$ 40 bilhões em prejuízos e 140.000 fatalidades; duas ocorrências de secas com incêndio, ocasionando US$ 500 milhões em indenizações; e mais outros 20 eventos, como nevascas e tempestades de granizo, que geraram perdas de mais de US$ 2 bilhões para as seguradoras e resseguradoras.

O evento mais oneroso para o setor de seguros foi o furacão Ike, que atingiu o Golfo do México em junho de 2008, ocasionando US$ 20 bilhões em prejuízos cobertos. Esse tipo de evento climático causa sérias preocupações ao setor e é uma das ocorrências mais intimamente associadas às mudanças climáticas.

Projeções recentes dos comitês científicos do IPCC assinalam os maiores problemas a serem enfrentados:
· A temperatura média global da Terra em 2100 poderá ter um aumento de 1,8ºC a 4ºC.

· Uma atmosfera mais aquecida iria aumentar ainda mais a produção de vapor de água, intensificando as chuvas em regiões de latitude mais alta e causando secas nas áreas tropicais e subtropicais.

· Paralelamente, as trocas energéticas entre a atmosfera e os mares também contribuem para a elevação da temperatura da água dos mares, o que, por sua vez, estimula uma maior atividade ciclônica.

· Em termos climáticos, o IPCC já previu ocorrências mais intensas do fenômeno El Niño, por exemplo.

· Além disso, o forte impacto na agricultura e na silvicultura poderia causar perdas de colheita e alterações nas fronteiras agrícolas.

· Espera-se um aumento no nível dos oceanos entre 18 cm e 59 cm até 2100 – ao passo que, nos últimos 100 anos, esse aumento foi de 17 cm.

· Impactos nas plantas e na vida animal, ou disseminação de doenças, já que as temperaturas mais altas podem promover a propagação de alguns vírus.
Portanto, a questão é: que ações a indústria deveria adotar diante do reconhecimento desses problemas e das previsões para o futuro do planeta citadas acima?
A resposta tem duas vertentes:

1. Sendo um dos maiores emissores de CO2 na atmosfera, a indústria não pode negar a sua parcela de responsabilidade pela mudança climática. Portanto, a indústria deve fazer o possível para reduzir drasticamente as emissões de gases estufa.

2. Fica patente que já estamos enfrentando um ritmo acelerado de mudança climática e as suas consequências. Isso significa que a indústria e a economia precisam adotar todas as ações cabíveis para se adaptarem às mudanças climáticas e para lidarem com os novos riscos que isso implica.

É um desafio enorme, mas nunca é tarde demais para dar o primeiro passo.

04/11/2009 06h22

Por Lutz Cleemann

Atuou como Diretor do AZT – Centro de Tecnologia Allianz até 2008 e como Superintendente de Desenvolvimento Sustentável Empresarial do Grupo Allianz. É PhD em Física Nuclear Experimental pela Universidade de Colônia (Alemanha) e possui extensa experiência em consultoria de risco, avaliação de tecnologias e pesquisa em segurança. Atuou como Chairman da Equipe Estratégica de Sustentabilidade Internacional do Grupo Allianz e foi representante da empresa junto ao World Business Council for Sustainable Development (WBCSD). Desde 2004, é membro do International Governance Risk Council (IRGC), em Genebra

Cadernos de Seguro - Uma Publicação da Escola Nacional de Seguros © 2004 - 2017. Todos os direitos reservados.