Cadernos de Seguro

Artigo

Tempo fechado para o seguro agrícola

[I]As seguradoras estão cada vez mais retraídas na hora de aceitar os riscos, aumentando as taxas e diminuindo o percentual de cobertura[/I]

[B]Charles de Barros Silva[/B]

Em 2007, nada menos que 142 eventos climáticos causaram grandes catástrofes em todo o mundo. Incêndios, alagamentos e furacões causaram prejuízos avaliados em US$ 70 bilhões. Desse total, US$ 28 bilhões foram assumidos por seguradoras. As constantes alterações do clima, influenciadas pelo aquecimento global, além de aumentarem o número de sinistros, influenciam diretamente no valor de taxas e na venda de alguns tipos de garantias, além de reduzir a capacidade dos seguros nacionais e internacionais.

Seja pela falta d’água ou pelo excesso de chuva, granizo, vento, ou por qualquer outro tipo de evento da natureza, as plantações estão sendo afetadas e tornando o seguro agrícola e os seguros patrimoniais os segmentos mais impactados e sensíveis às mudanças climáticas. O seguro agrícola no país é operado desde 1966, mas ganhou visibilidade e consistência somente a partir de 2006, com o auxílio federal através do mecanismo da subvenção. Em menos de cinco anos, a área segurada já atingiu 4,8 milhões de hectares. Mesmo representando apenas 7% da área segurável do território nacional, esse número já situa o Brasil na quarta posição mundial em contratação dessa modalidade de seguro, e os impactos maiores podem ser claramente percebidos analisando-se os últimos quatro anos.

De acordo com estatísticas da principal seguradora do ramo de seguro agrícola no país, a Aliança do Brasil – que atende uma demanda gerada pelo Banco do Brasil (principal financiador dos produtores do país) –, enquanto nas safras de 2005 e 2006 foram registrados apenas quatro sinistros, nas safras 2008 e 2009 esse número subiu para 4.954. Esse aumento também pode ser observado na relação entre prêmios e sinistros, uma vez que nos anos de 2005 e 2006 foram recolhidos R$ 273.957 em prêmios, e R$ 29.501 pagos em sinistros. Já nas safras 2008 e 2009 esses mesmos números subiram assustadoramente. Mais de R$ 188 milhões foram recebidos em prêmios e cerca de R$ 122 milhões foram pagos em sinistros. O número de propostas de seguros também teve aumento significativo. Enquanto apenas 67 propostas foram registradas em 2005 e 2006, em 2008 e 2009 foram contabilizadas 35.798.

Este aumento expressivo no número de sinistros faz com que, atualmente, as cinco seguradoras que atuam nesse segmento tenham receio de operar. O mercado está cada vez mais retraído na hora de aceitar os riscos e o reflexo dessa situação está no aumento das taxas e na diminuição do percentual de cobertura – fato este que, por sua vez, também gera um problema para as corretoras, que por conta dessa restrição ficam sem capacidade para suprir suas demandas. Hoje, as seguradoras só querem aceitar os riscos das lavouras localizadas nas regiões com poucas alterações climáticas. Em contrapartida, a maioria dos agricultores só quer contratar seguros para as lavouras críticas ou para as regiões onde há uma exposição maior, seja por tradição de seca, vendaval, chuva ou vento.

Para resolver esse impasse, defendo que as grandes empresas agrícolas que financiam as safras dos agricultores devam ampliar o trabalho de conscientização para que eles também façam seguro das lavouras localizadas nas áreas estáveis do ponto de vista climático, para que haja um equilíbrio entre prêmios e seguros. Somente dessa forma as seguradoras teriam capacidade para absorver a grande demanda dos seguros agrícolas.

O resseguro também é diretamente afetado pelos eventos climáticos. Se a seguradora tem sinistro, o ressegurador também tem, e quase sempre em maior proporção, já que está muito mais exposto que a seguradora, pois transfere para si o risco de diversas operadoras de vários países. O ressegurador que opera no Brasil, muitas vezes tem sede na Europa ou nos Estados Unidos, e se nesses países houver um grande evento com expressivas perdas, todos os países em que esse ressegurador opera, de uma forma ou de outra, também serão afetados. Por exemplo, a queda recente da aeronave da Air France gerou uma perda de US$ 750 milhões para a resseguradora, e por consequência o mercado de seguros de aeronaves sofrerá grande impacto. Outro momento impactante para o mercado de seguros foi o “11 de Setembro”, em 2001.

Em 2005, o furacão Katrina, que devastou a cidade de New Orleans, afetou fortemente o mercado mundial de seguros de vendaval, de desmoronamento e alagamento, como se deu com o evento de Itajaí, que mesmo sendo um evento de menor proporção, quando comparado com o Katrina, também afetou o mercado internacional, já que as seguradoras estavam amparadas junto aos resseguradores internacionais, que acabaram assumindo as perdas geradas por esse evento.

Devido ao grande impacto do evento de Itajaí, algumas seguradoras e resseguradoras não operam mais em certas garantias nessa região, como o seguro para alagamentos, o que é uma retração comum no segmento de seguros.

04/11/2009 06h24

Por Charles de Barros Silva

Graduado em Administração de Empresas pela Faculdade de Ciências de Apucarana, possui especialização em Relações Públicas Empresariais pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e Marketing e Desenvolvimento Gerencial pela Universidade Norte do Paraná (UNOPAR). Há 15 anos trabalha no ramo de seguros e há quatro anos atua como Superintendente Técnico de Corporate na Bergus Corretora de Seguros. É instrutor da Escola Nacional de Seguros – Funenseg

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