Cadernos de Seguro

Artigo

Preocupam os sinistros provocados por fenômenos naturais?

[I]Inundações, secas, tornados...[/I]

[B]René Hernande [/B]

Todos nós já estamos habituados às notícias que, praticamente todos os dias, são veiculadas na mídia sobre os efeitos do aquecimento global no clima do planeta; uma série de fenômenos é atribuída ao aquecimento global, tais como: ciclones tropicais, tornados, inundações, tempestades de granizo, etc. O furacão Catarina, ocorrido no Sul do Brasil em 2004, foi causado, segundo alguns especialistas, pelo aquecimento global; os tornados que assolam determinadas localidades brasileiras, e mais fortemente a região Sul, também sofrem a mesma classificação. Há, inclusive, algumas notícias que fazem parecer que são os fenômenos novos que estão nos afetando, tendo como causa principal o aquecimento global.

Não há fenômenos “novos”, e sim, na maioria das vezes, o que há é um aumento de frequência e/ou de intensidade de fenômenos “antigos”. Assim, ninguém pode dizer, com absoluta certeza, se o Catarina foi o primeiro furacão a atingir o Brasil. Os satélites, os grandes aliados na detecção e caracterização desses fenômenos, têm uma presença muito recente na história da humanidade. O fato é que, desde meados da década de 1980 (vide gráfico), temos um aumento significativo, em âmbito mundial, dos fenômenos relacionados ao clima.

Portanto, podemos dizer, em última instância, que nada há de novo no que se refere aos fenômenos climáticos do planeta. Dentro dessa visão mais abrangente, cabe, então, a pergunta: como tratar tais fenômenos? O setor de seguros, em face da severidade dos fenômenos climáticos, está fadado a excluir de vez as coberturas relacionadas ao clima?

Como vemos, o assunto talvez não se limite aos eventos em si. O aquecimento global trouxe uma série de indagações, tornando a precificação do conjunto de fenômenos climáticos uma questão muito complexa. Há algo mais profundo nessa questão, pois se os fenômenos são recorrentes, e o que há é um aumento na frequência e/ou intensidade, talvez o que falte sejam as respostas de como enfrentar o problema.

Embora cada vez mais raro, há, ainda, um outro grande debate: entre os que defendem que as condições quanto ao aquecimento do planeta caminharão para uma realidade muito pior do que a atual e aqueles que defendem que tal fenômeno é algo natural na história do planeta. Nesse último caso, por consequência, não somos a causa e tampouco poderemos influenciar (em nada) no desaquecimento do planeta.

Entre esses dois grupos há um grupo misto que, na realidade, é composto de dois subgrupos. Um deles defende algo parecido com os que entendem que é o homem a causa do aumento das catástrofes de origem climática. Assim, esse grupo também acredita que é o homem a causa principal do problema, mas ressalva que há um fator natural interferindo de forma a agravar o quadro.

O segundo subgrupo está mais próximo dos que defendem que a realidade atual é oriunda de causas naturais, cabendo, porém, ao homem, apenas um papel de coadjuvante no agravamento do atual estado do planeta.

De uma certa forma, o grupo dos que defendem, total ou parcialmente, que o planeta passa por um processo natural de aquecimento, apresenta um triste cenário para aqueles que pretendem agir no sentido de minimizar tal problema, pois, dentro dessa configuração proposta, o planeta é o ator principal, e ao homem caberia, no máximo, um papel secundário – o que reduziria ou inviabilizaria qualquer ação humana no sentido de melhorar a realidade na qual estamos inseridos.

No entanto, o Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), um grupo que reúne renomados cientistas de todo o mundo, tem estudado há anos a questão do clima e defende que, se não totalmente, conclusivamente é o homem o agente principal do aquecimento global. Outra conclusão do IPCC é que, infelizmente, o planeta inevitavelmente irá aquecer ainda mais; a intensidade desse aquecimento é que pode ser controlada, caso tomemos ações nessa direção o quanto antes, algo que ainda não se efetivou conforme constatamos com os resultados de reuniões como as do G-20 nessa questão.

O aumento da quantidade e da severidade, a diminuição do tempo de retorno entre as ocorrências, e a expansão da área geográfica de ocorrência de fenômenos tais como ciclones tropicais torna a precificação, nessas condições, uma tarefa assustadora.

Mas a grande preocupação não mais se resume ao questionamento em relação ao aumento da severidade e frequência de eventos climáticos severos; o grande desafio que se apresenta é relativo à previsão da intensidade desse aumento.

Assim, só nos resta proceder de forma cada vez mais limitada: o passado, que serve de base para cálculos presentes na precificação, resultará nos prêmios que serão recebidos pela seguradora no futuro. Tal configuração gera uma situação incerta: no futuro, se novas condições, não previstas, estiverem presentes, a precificação assim realizada tenderá a não se adaptar a uma possível maior severidade.

Assim, como de costume, os melhor adaptados, sobreviverão.

04/11/2009 06h37

Por René Hernande V. Lopes

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