Cadernos de Seguro

Artigo

Mudança de olhar

[I]A vital e urgente ação da indústria de seguros e suas relações com os agentes econômicos e sociais do planeta[/I]

[B]Rodolfo Francisco Ern[/B]


Generalizadamente discutidas em todo o mundo porque inequivocadamente presentes, as transformações a que o clima tem sido exposto vêm nos obrigando a uma mudança de olhar sobre o que nos cerca, do qual fazemos parte, e nos processos que utilizamos para pensar, produzir e existir.

Não bastasse o esforço acima, descobrimos simultaneamente que o tempo é por demais escasso até mesmo para permitir alguns momentos de assombro, porque se algo pode vir a ser reversível em alguma extensão – mesmo que não considerada economicamente viável pelos padrões em voga –, então as medidas têm que ser tomadas de imediato. As corretivas, as preventivas e as preditivas.

Os fenômenos climáticos, portanto, têm se tornado mais frequentes e mais severos, e também mais generalizados no sentido de se manifestarem – algumas vezes atribuindo-se-lhes características de ineditismo, como no nosso furacão Catarina – em um maior número de localidades ao redor do mundo, muito embora deva-se considerar a maior disponibilidade presente de instrumentos de detecção/medição e de divulgação das informações.

A indústria de seguros está internacionalmente identificando os riscos climáticos severos, estudando-os em profundidade, assim como as medidas, ou as combinações delas, que podem se mostrar adequadas para conviver com alguns deles.

Como consequência do seu papel principal e típico, que é a gestão de riscos, a indústria de seguros tem como partes interessadas, aquelas com as quais se relaciona, todos os agentes econômicos e sociais do planeta.

A realidade que emerge nos demonstra que a manutenção e evolução das nossas atividades pelas próximas décadas não está apenas na permanente identificação e avaliação dos riscos que nos cercam, mas também – e principalmente – na compreensão de que eles têm necessariamente que ser geridos solidariamente com todos aqueles agentes, e de forma não estanque, o que equivale a dizer de maneira amplificada, integrados no amplo contexto da sustentabilidade socioambiental.

As soluções abrangem a autorregulação da indústria de seguro – e por extensão também a do resseguro – em conjunto com intervenções junto ao governo e à sociedade civil.

A seguir, alguns exemplos sobre as ações que seguradoras podem tomar, nos quais são citados tópicos de um estudo para a inclusão de riscos ambientais e sociais feitos pelos bancos portugueses, intitulado “Banca e Seguros, Ambiente e Sociedade – Desafiar Mentalidades, Definir Novas Oportunidades de Negócios”:

[I]Autoanálise e mitigação[/I]

Antes de mais nada, antes de qualquer exemplo, as seguradoras necessitam ter consciência da quantidade de CO2 que estão emitindo e dos volumes de água e de energia que estão utilizando, a fim de tomarem as necessárias medidas para a redução, bem como o estabelecimento das metas e dos respectivos prazos.

[I]Análise dos relacionamentos com os partes interessadas[/I]

A análise do item anterior, assim como as medidas de mitigação, tem que ser estendida a todos os processos das empresas, o que inclui as suas interações com todos as partes interessadas.

[I]Investigação dos impactos das alterações climáticas[/I]

As alterações climáticas provocam novos impactos ambientais e consequentemente novos riscos. Isso deve ser investigado, levantado e mapeado.

O Brasil, apenas para citar um exemplo, não dispõe de um mapa, atualizado e integrado em sistemas de consulta “on line” e com gestão integrada a universidades e institutos de pesquisa, de riscos naturais a que está submetido em um dado período de tempo.

[I]Informação sobre as consequências de tais impactos[/I]

Esses novos impactos ambientais influenciam os negócios dos segurados, os quais, por sua vez, podem não ter ideia do surgimento de tais novos riscos, de sua extensão e do impacto potencial deles decorrente.

A informação e a educação financeira dos consumidores tornam todo o processo mais transparente e vantajoso para ambas as partes.

[I]Critérios de análise de riscos[/I]

Introdução de critérios ambientais na análise dos riscos e procedimentos operacionais.

[I]Satisfação das necessidades dos clientes e exigências das partes interessadas[/I]

Modificação e adaptação do processo de interação com o cliente, abrindo canais de comunicação eficazes para a troca de informações com os clientes a respeito dos produtos e processos e o seu “compliance” com as normas e leis ambientais e sociais, sempre tendo em mente as particularidades do público-alvo de um dado canal.

[I]Mitigação do risco ambiental[/I]

A visita aos locais segurados (a inspeção de risco) poderá representar uma vantagem competitiva para as seguradoras, uma vez que aumenta a informação disponível a respeito do risco objeto do seguro. O preço do seguro poderá ser melhorado se seguidas forem as indicações de mitigação por parte da seguradora.

26/11/2009 06h24

Por Rodolfo Francisco Ern

Engenheiro mecânico, superintendente técnico da Bradesco Auto/RE Cia. de Seguros

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