Cadernos de Seguro

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EVOLUÇÃO RECENTE DO MERCADO DE RESSEGURO

[B]Crescimento de apenas 1% no volume de prêmios de resseguros não espelha a real e promissora perspectiva do setor no Brasil[/B]


Segundo dados da Susep, os prêmios de resseguros das resseguradoras locais foram de R$ 1,1 bilhão no período jan-jul de 2010, o que implicou num decréscimo de 51% ante o mesmo período de 2009. A razão desse decréscimo foi essencialmente o desempenho do IRB cujos prêmios caíram 66% no período citado. No lado positivo, cabe mencionar o crescimento de 112% dos prêmios de resseguro da Mapfre.

Os prêmios de resseguros cedidos pelas seguradoras somaram R$ 2,43 bilhões em jan-jul de 2010, o que significou um decréscimo de 1% ante o mesmo período de 2009. Por conseguinte, pode-se estimar que os prêmios de resseguros das resseguradoras admitidas e eventuais alcançaram R$ 1,3 bilhão naquele período, o que significou um acréscimo de 567% em comparação com os valores de idêntico período de 2009.

Isto posto, o market share do IRB frente às resseguradoras locais caiu de 78% em jan-jul de 2009 para 54% em jan-jul de 2010. Frente ao total cedido pelas seguradoras brasileiras, tal fatia de mercado desceu de 72% para 25% no mesmo período de comparação.
Já o market share das resseguradoras locais exceto o IRB, frente ao total do resseguro local, aumentou de 22% para 46% em idêntico lapso de tempo. Frente ao total cedido pelas seguradoras, o market share de tais empresas cresceu ligeiramente de 20% para 21%.
O market share das resseguradoras locais frente ao total de prêmios de resseguro cedidos pelas seguradoras caiu de 92% em jan-jul 2009 para 46% em jan-jul 2010, em função da perda de negócios do IRB. O percentual de 46% está, portanto, ligeiramente acima do limite de 40% determinado pela legislação para cessão de resseguros para as empresas locais.

Os dados de balanço das resseguradoras locais correspondentes ao período jan-jul de 2010 mostram que apenas duas empresas tiveram taxa de rentabilidade anualizada do P.L. (Lucro líquido dividido pelo P.L.) acima de 12% (benchmark), a saber, J. Malucelli (16%) e Munich (13%). Na base, ficaram ACE, IRB e XL com, respectivamente, 2%, 3% e 3%. Mapfre apresentou rentabilidade de 10%.

Quanto ao índice combinado, apenas J. Malucelli, Mapfre e Munich apresentaram valores abaixo de 100, indicando ganho na atividade especifica de ressseguro. As demais tiveram perdas, com destaque para a ACE com índice combinado de 292.

No que se refere ao índice combinado amplo, todas as resseguradoras locais tiveram valores inferiores a 100, indicando ganhos quando se somam as atividades de seguros com as de aplicações financeiras. Os destaques positivos foram a ACE e a J. Malucelli com índices combinados amplos de 31 e 38, respectivamente.

De especial interesse é a evolução do IRB no período atual de abertura do resseguro. Os dados abaixo mostram que a perda de market share do IRB, de jan-jul de 2009 para jan-jul de 2010, foi acompanhada de sensível perda de rentabilidade: o índice combinado subiu de 109 para 132 e a rentabilidade do P.L. caiu de 8% para 3%, isso apesar do índice combinado amplo ter tido ligeira queda de 95 para 94.
Interessante notar que, apesar da diminuição de 66% da arrecadação com prêmios de resseguros e de 38% nos prêmios ganhos, as despesas de comercialização do IRB praticamente não se alteraram, as despesas administrativas caíram apenas 15% e as outras receitas/despesas operacionais tiveram uma variação negativa de R$ 28,8 milhões, o que parece demonstrar dificuldades de ajustamento rápido da empresa à conjuntura de maior concorrência. O lucro líquido do IRB caiu 58%, demonstrando que o resultado financeiro e o patrimonial não foram suficientemente positivos para compensar a evolução desfavorável das despesas.

E possível também observar mudanças no mercado de resseguro com base nos prêmios de resseguros por grupos. No caso do IRB. a tabela mostra que a queda de negócios foi generalizada entre 2009 e 2010, com a única exceção do grupo riscos financeiros cujos prêmios cresceram 1%. É possível perceber também o grande decréscimo no que era o principal campo de atuação da empresa – o grupo de resseguros patrimoniais – cuja queda de 81% o colocou em segundo lugar em 2010, atrás do grupo rural/animais. E dois grupos importantes em 2009 e anos anteriores – responsabilidades e transportes, com prêmios de R$ 80 milhões e R$ 91 milhões respectivamente – passaram em 2010 a contribuir negativamente para a rubrica prêmios de resseguros, com variações negativas de 102% e 113%.

Quadro diferente se observa no conjunto das resseguradoras locais, exceto o IRB. A maioria dos grupos teve incremento de negócios, com exceção dos grupos animais, pessoas e riscos especiais. A distribuição também se mostra concentrada nos grupos patrimonial e de riscos financeiros, aquele com volumes de R$ 231 milhões e taxa de acréscimo de prêmios de 29% em 2010 sobre 2009, e este, com R$ 133 milhões e -40%. Tais empresas, no entanto, parecem ainda tímidas em grupos importantes de resseguro como automóveis e pessoas, com prêmios em 2010 de apenas R$ 8,6 milhões e R$ 11,6 milhões, respectivamente, e taxas de variação sobre 2009, de 6% e -26%. No mesmo período, o IRB auferiu nesses grupos prêmios de R$ 88,4 milhões e R$ 88 milhões, respectivamente.

A queda de 1% do volume de prêmios de resseguros cedidos pelas seguradoras entre jan-jul.2009 e jan-jul. 2010 pode mascarar a variação real na atividade resseguradora. A razão é que, na competição por market share, iniciada após a quebra do monopólio do IRB, as taxas de resseguro parecem ter caído significativamente. Segundo o economista Luiz Roberto Castiglione, “a abertura [do resseguro] trouxe empresas globais para o mercado, uma gama maior de contratos de resseguros e melhores preços". Paulo Pereira, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Resseguro (Aber), afirma "os indicadores do Brasil estão bons, a perspectiva é de crescimento e de muitas obras a serem executadas. E o mercado de resseguro vai crescer junto com tamanho potencial". (fonte: https://www.aberesseguros.org.br/article.php3?id_article=254)

Para ver as tabelas deste artigo, clique aqui: http://cadernosdeseguro.funenseg.org.br/tabelas/lauro.htm

07/12/2010 03h12

Por Lauro Vieira de Faria

Economista e consultor da Escola Nacional de Seguros – Funenseg

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