Cadernos de Seguro

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FRAUDE: ESTA PRAGA QUE EXISTE EM TODO LUGAR

[I][B]Carancho[/B] – sm esp. – ave de rapina de grande porte, que se alimenta principalmente de carniça; abutre. Na definição popular na Argentina, são os advogados que procuram ou criam vítimas de trânsito para fraudar as seguradoras.[/I]

Fui assistir ao filme “Abutres” (Carancho), do diretor argentino Pablo Trapero, que trata especificamente de fraude contra o seguro DPVAT, mas também é um thriller de relevância social.

Posso dizer que depois de muitos anos lidando com esta praga, percebo que o assunto, a forma, e tudo que se relaciona à fraude é igual em todos os países. “Abutres”, na realidade, trata da tomada de consciência de um advogado, Sosa (Ricardo Darín), que ia até as últimas consequências visando receber a indenização da seguradora. Ao se apaixonar por uma paramédica, Luján (Martina Gusman), resolve agir corretamente e daí advêm as consequências do envolvimento com pessoas inescrupulosas.
O filme, que denuncia a máfia que arrola advogados, médicos, enfermeiros e policiais, com o intuito de fraudar as seguradoras, deu origem, no fim do ano passado, a uma discussão no congresso argentino visando à reformulação da legislação de seguros para acidentes de automóvel.

Os advogados que agem de forma ilícita, tentando receber o devido e o indevido das seguradoras, são conhecidos, na Argentina, como abutres (carancho). A rede que mobilizam envolve policiais, médicos e funcionários de hospitais. A mecânica operacional dessa máfia começa por gerar acidentes e, a partir daí, de posse de uma procuração, esses advogados tentam receber altas somas de indenização e repassam um valor mínimo ao acidentado ou a sua família, em caso de falecimento.

No filme, o personagem Sosa é funcionário de um escritório especializado em indenizações por acidentes. Na verdade, um centro de fraudes e extorsão. Para isso, ele corre atrás de ambulâncias para tentar transformar acidentados em clientes, tem até um rádio-escuta em seu carro para ouvir os chamados de emergência da cidade. Em alguns casos, cria os acidentes que, muitas vezes, tomam proporções gigantescas, levando ao falecimento do indivíduo.
Sosa seguiria neste caminho se não cruzasse com Luján (Martina Gusman), uma paramédica que socorre vítimas de acidentes automobilísticos.

Num clima de verdadeiro suspense, o advogado, ao tentar sair deste esquema de corrupção, sente a mão pesada da máfia, que o obriga a se manter no esquema sob pena de ser morto. Luján, que vive o permanente estresse de conseguir que os acidentados sejam aceitos no pronto-socorro, começa a desconfiar da idoneidade de seu namorado, e aí se desencadeia um embate entre os dois.

O filme retrata com realismo o mundo caótico em que vivem estes abutres. Espancam médicos, pessoas e ficam reféns destes indivíduos inescrupulosos que manipulam e influenciam desde um simples motorista de ambulância até um policial corrupto. Para dar um exemplo, às vezes a ambulância ia atender um chamado que não existia oficialmente, mas ele já tinha conhecimento e, em poucos minutos, estava no local.

Na realidade, este esquema de fraude contra as companhias, no seguro obrigatório, é bastante rendoso no Brasil e em outros países que adotam o mesmo tipo de cobertura.

“Abutres” parece uma espécie de primo latino de “Crash – Estranhos Prazeres”, de David Cronenberg, lançado em 1996 e que provocou protestos na Argentina por parte da “Associação das Vítimas de Acidentes de Trânsito”, que conseguiu tirá-lo de cartaz em Buenos Aires. Aqui, no entanto, ao contrário do longa canadense, baseado em J.G.Ballard, as batidas de carro não são formas de fetiche, mas praticamente ferramentas para movimentação, de forma ilícita, da economia.

A fraude é, sem dúvida alguma, uma erva daninha que precisa ser extirpada. Sua prática no seguro de automóvel é feita em grande escala. Nos seguros de pessoas, encontramos desde a morte premeditada até assinaturas falsificadas, idades modificadas, e mais uma infinidade de mecanismos que são usados para tentar burlar as seguradoras.

Há ainda fraude no seguro de transporte, em incêndio, com casos até pitorescos já mencionados por mim em outros artigos. É evidente que o grande problema das seguradoras é provar a fraude, já que apenas o indício da fraude não é aceito como prova pela justiça brasileira.

O nosso principal problema é na contratação do seguro, em que deixamos escapar perguntas e informações que fatalmente inibiriam a prática de fraude. A nossa passividade em relação ao problema é outro entrave para acabarmos com esta erva daninha. As seguradoras normalmente preferem encerrar o sinistro a abrir um processo criminal contra o indivíduo ou indivíduos.
Quem sabe uma hora nós conseguiremos também realizar um filme mostrando os malefícios da fraude, o que representa e o que traz de negativo para o segurado, a seguradora e ao próprio mercado de seguros.

28/02/2011 04h37

Por Lucio Marques

Presidente do Clube de Vida em Grupo do Rio de Janeiro (CVG-RJ) e diretor Comercial da Cia de Seguros Previdência do Sul

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