Cadernos de Seguro

Artigo

TERREMOTOS, TSUNAMIS – ESTARÍAMOS SOB O APOCALIPSE?

[B]E corremos tais riscos no Brasil?[/B]

Dentre os fenômenos que mais assustam a humanidade estão os terremotos e os tsunamis. Os acontecimentos recentes no Japão trazem à lembrança algo semelhante ocorrido em 2004. A cada nova ocorrência perguntas aparecem, mitos são criados e outros derrubados. Algumas pessoas já começam a defender a ideia de que estamos nos fins dos tempos.

Mas é racional entender mais a fundo tais fenômenos, pois o que mata ou provoca danos materiais nem sempre é o efeito direto de um deles, e sim o desconhecimento quanto à sua ocorrência e seus efeitos posteriores. Se um indivíduo não tem ciência do evento, não há como se antecipar a ele.


[B]Diferenciando a natureza dos fenômenos catastróficos[/B]
Em relação às catástrofes naturais é importante, primeiramente, distinguir entre as climáticas (tempestades, ciclones, tornados, ondas de calor e de frio, etc.) e as não-climáticas (terremotos, tsunamis, vulcanismo).

As climáticas estão apresentando tendência de alta desde os anos oitenta. Contudo, o mesmo não ocorre com as não-climáticas. Em relação às perdas seguradas, podemos perceber que as primeiras são aquelas mais impactantes.

Isso porque, em grande parte dos países, estão excluídas as coberturas de danos por terremoto e maremoto, fazendo com que o impacto de tais eventos na sinistralidade seja muito menor frente à possibilidade de tais exclusões não existirem. Um outro fator que serve para configurar tal situação está na penetração de tal seguro ser pequena ou cara.


[B]Terremotos: os mais mortíferos dos fenômenos naturais[/B]
Em 2010, mais uma vez eles mostraram por que apresentam uma média de mortes acima dos demais fenômenos.

Contudo, os países que mais colaboram para tal quadro são aqueles com maior nível de pobreza ou que têm construções inadequadas às ocorrências de tais fenômenos – este foi o caso do Haiti.

Portanto, apesar do elevado número de mortes, é importante ressaltar que tal quadro se deve à precariedade das construções nos países mais pobres.

Por outro lado, os tsunamis provocados por maremotos não são os mais impactantes em termos de mortes. Em média, menos de 1% das mortes são causadas por eles. Atualmente, há como prever sua chegada à costa com bastante antecedência. A destruição de propriedades se restringe à área costeira.

A principal causa de tsunamis são os maremotos. Estes são, na realidade, terremotos que ocorrem no solo sob o oceano.

Os terremotos, porém, não são os únicos eventos que provocam tsunamis. Queda de partes de montanhas dentro do mar e a atividade vulcânica também podem causá-los. Um dos maiores tsunamis ocorreu quando da erupção do Vulcão Krakatoa, em 1883, que devastou as áreas costeiras de Java e de Sumatra.

[B]Memória de eventos anteriores: intensidades raras não deixam lembranças[/B]
Quanto mais frequente é um fenômeno, maior será a possibilidade das pessoas se preparem para um evento futuro. Se a memória é constantemente ativada por um acontecimento, não há como esquecer dele facilmente. Assim, nos locais onde a população sabe que certos fenômenos ocorrem com relativa regularidade, a tendência é desenvolver meios para contornar seus efeitos.

Contudo, é normal que os eventos mais intensos e altamente danosos ocorram com um intervalo maior do que os menos intensos. Isso é um problema, pois se o espaçamento entre as ocorrências for muito grande, a memória da ocorrência anterior vai sendo “apagada” e, a não ser na mente dos mais idosos, tal lembrança não está mais presente. Com isso, a população relaxa, e quando um evento de maior intensidade acontece novamente, fatalmente pode gerar uma catástrofe.


[B]O Brasil é um país livre de terremotos?[/B]
Além de tendermos a crer, com base no que recebemos de informação, que os terremotos e tsunamis estão mais presentes no resto do mundo, temos a impressão de que o Brasil é um país livre desses tremores.

Na realidade, o Brasil é pouco exposto a tais fenômenos, mas não isento.

No mapa de terremotos compilado pela Universidade de Brasília, que reúne as ocorrências conhecidas desde 1811, vemos que, normalmente, eles são de magnitudes que não causam danos.

O estado do Acre é o que apresenta uma frequência significativa de eventos de maior magnitude. O motivo é a proximidade da cordilheira dos Andes e, consequentemente, do encontro de placas tectônicas.

Até hoje, o maior tremor de terra registrado no Brasil atingiu a magnitude 6,6 graus na escala Richter e ocorreu em 31 de janeiro de 1955, na Serra do Tombador, no estado de Mato Grosso. Próximo a esse local, ocorreu um outro terremoto de intensidade moderada, de 5,0 graus na escala Richter, em março de 2005.

No dia 22 de abril de 2008, um tremor de terra com magnitude 5,2 ocorreu no Oceano Atlântico, na área da Bacia de Santos, e foi sentido nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio de Janeiro.

Ou seja, embora não estejamos isentos da presença de tremores de terra, não estamos nem perto da frequência a que estão expostos países como o Japão, México, Estados Unidos, etc. Contudo, não há garantias de que terremotos de magnitudes maiores do que o que atingiu a Serra do Tombador não ocorram em nosso país.

[B]No meio de tantas catástrofes, boas notícias são bem-vindas[/B]
Apesar dos números apresentados neste artigo aparentemente “provarem” que há crescimento no número de terremotos, tal conclusão não é verdadeira. Especialistas do campo de Geociências afirmam que o que está acontecendo é que os terremotos estão sendo registrados com maior precisão devido ao avanço da tecnologia nas últimas décadas.

A quantidade de estações registradoras de terremotos também aumentou muito nos anos mais recentes. Um outro fator importante nessa evolução é um maior conhecimento do passado da Terra, permitindo que, cada vez mais, possamos conhecer o que realmente ocorreu e ocorre no Planeta.

Um outro fator é a ocupação humana. A população humana tem aumentado e ocupado áreas expostas a toda espécie de riscos, como é o caso das áreas costeiras da Ásia – sujeitas a tsunamis. Por sua vez, a ocupação humana e o avanço da tecnologia levaram à concentração de bens. As perdas de vidas e de bens nos levam a acreditar que há um aumento de frequência.

[B]O setor de seguros pode contribuir para diminuir os impactos econômicos de terremotos?[/B]
Como qualquer outro risco, os oriundos de terremotos são seguráveis se forem aleatórios, quantificáveis se não forem suficientes onerosos a ponto de extinguir o fundo constituído para a cobertura.

Por outro lado, o preço do seguro deve estar adequado ao valor com que os segurados podem arcar e ser suficiente para constituição do fundo para pagamento das indenizações e lucro das seguradoras. As construções devem estar adequadas a rígidas normas que permitam resistir aos terremotos. A subscrição deve obedecer a critérios que garantam que a solvência da seguradora não seja comprometida com acúmulos de risco.

No Brasil, a penetração desse seguro ainda é pequena. Isso pode ser atribuído às restrições de cobertura e também ao fato de que o brasileiro não se sente exposto a tal risco.

Contudo, a indústria de seguros só poderá abranger uma parte dos expostos ao risco. Não haverá como atingir a totalidade. Sendo assim, uma parceria com o poder público pode ser a solução para aumentar a capacidade de uma região responder com mais rapidez à devastação consequente das catástrofes naturais.

O fundamental é fugir dos catastrofismos que ameaçam a racionalidade. O planeta não está acabando por causa dos terremotos e tsunamis, e nem está pior hoje do que já esteve no passado. Há muito ainda por fazer, sem dúvida, mas o importante a ser ressaltado é que a indústria de seguros está fazendo a sua parte.

Veja os gráficos e tabelas deste artigo clicando aqui

03/05/2011 10h52

Por René Hernande V. Lopes

Atuário

Cadernos de Seguro - Uma Publicação da Escola Nacional de Seguros © 2004 - 2017. Todos os direitos reservados.