Cadernos de Seguro

Artigo

IGPM X IPCA

Risco sistemático proveniente do descasamento entre os índices no mercado segurador e de previdência



O objetivo deste artigo é mensurar, em um cenário de estresse, o efeito do risco proveniente do descasamento entre o Índice Geral de Preços – Mercado (IGPM) e o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

A escassez de ativos com remuneração atrelada ao IGPM, associada ao fato de haver passivos previdenciários indexados a este índice, tem levado diversas companhias a compor suas carteiras de investimento com títulos com remuneração pelo IPCA. Com isso, essas companhias acreditam que, na falta do índice que protegeria perfeitamente o passivo, um ativo remunerado por outro índice de inflação protegerá, pelo menos aproximadamente, o passivo em IGPM.

A possível divergência nos comportamentos do IGPM e do IPCA e os efeitos decorrentes na saúde financeira do mercado de seguros e de previdência representam um risco que não pode ser mitigado por meio de diversificação, constituindo assim uma fonte de risco sistemático, já que, na ocorrência de eventos inesperados nas estruturas a termo de cupom de IGPM e de IPCA, diversas companhias seriam atingidas ao mesmo tempo.

Para mensuração do risco de descasamento foi preciso, primeiro, mapear todo o passivo do mercado lastreado em IGPM, o qual foi segregado em três tipos de fluxos de caixa distintos:

- Benefícios concedidos (referente à Provisão Matemática de Benefícios Concedidos – PMBC);

- Benefícios a conceder dos planos tradicionais (referente à Provisão Matemática de Benefícios a Conceder – PMBAC de planos tradicionais). Esses planos são aqueles estruturados na modalidade de benefício definido ou na modalidade de contribuição variável, em que a PMBAC possui uma garantia mínima de rentabilidade. Essa garantia pode ser exclusivamente financeira ou atuarial (juros em adição à rentabilidade por tábua biométrica). As garantias, em sua absoluta maioria, envolvem também indexadores;

- Benefícios a conceder de planos PGBL e VGBL (referente à Provisão Matemática de Benefícios a Conceder – PMBAC de planos PGBL e VGBL). Tais planos são aqueles nos quais, durante a fase de acumulação dos recursos, a rentabilidade da PMBAC está atrelada à performance de um fundo de investimento em que os recursos estão aplicados, sem qualquer tipo de garantia financeira.

A avaliação do passivo foi feita considerando bases correntes e realistas de sobrevivência, via a utilização da tábua BR-EMS evoluída com ganhos de longevidade modelados por meio do modelo Lee-Carter (1992) aplicado aos dados do IBGE (entre 1998 e 2008).

Feito isso, com vistas a isolar o efeito do descasamento das taxas, adotou-se a premissa de que o passivo em IGPM está coberto, primeiramente, pelo estoque de Notas do Tesouro Nacional – série C (NTN-C) disponível no mercado segurador e que toda a falta de cobertura por inexistência de NTN-Cs é cumprida por fluxos de caixa em IPCA.

Para quantificar o risco do descasamento recorreu-se a duas abordagens, ambas baseadas em cenários estressados. A primeira pode ser chamada de “histórica”, enquanto a segunda utiliza aproximação normal, de forma incondicional, com diferentes níveis de probabilidade crítica.

Por fim, foram discutidos os resultados, assim como algumas ações sob o escopo microprudencial que podem ser adotadas para mitigação ou controle desse risco.


Marcos Antônio Simões Peres
Analista Técnico da Superintendência de Seguros Privados (Susep) e Professor do Instituto de Matemática e Estatística da UERJ.
marcos.peres@susep.gov.br

21/09/2012 02h20

Por Eduardo Fraga Lima de Melo

Analista Técnico da Superintendência de Seguros Privados (Susep) e professor adjunto do Instituto de Matemática e Estatística da UERJ.

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