Cadernos de Seguro

Artigo

O Impacto das Variáveis nas Simulações de Planos de Previdência Privada

Alternativas e soluções

Estudos do Censo de 2010 do IBGE demonstraram redução nas taxas de mortalidade da população brasileira apontando para um aumento na expectativa de vida para 81,3 anos ao nascer estimados para o ano de 2050, com taxa geométrica de crescimento anual da população em 1,17%, considerando o período de 2000-2010. Contudo, o Brasil não é um caso isolado.

Com uma expectativa de vida cada vez maior, a representatividade desses números traduz uma necessidade de preparo e proteção para uma realidade presente nos dias de hoje relativos à previdência, seja ela pública ou privada, que é a formação de uma reserva que possa ser suficiente para arcar com os custos da aposentadoria sem depender de recursos extras ou ter que continuar trabalhando para complementar a renda para bancar as despesas dessa melhor idade.

O governo vem sofrendo politicamente para ajustar as contas de previdência e depois de muitos anos se aproxima da aprovação do Fundo de Previdência Complementar para os Servidores - Funpresp, que é uma das formas de política pública para tentar equilibrar as contas do funcionalismo federal. Esse projeto equipara o regime do serviço público aos dos trabalhadores da iniciativa privada, tencionando contrabalançar as finanças do sistema previdenciário do país.

Contudo, decidir realizar um plano de previdência privada exige que a pessoa conheça seu próprio perfil de investidor, sendo assim, ela deve ter em mente que investir em um plano de previdência exige disciplina e, ainda, considerar que esse investimento é de longo prazo. Caso contrário, não irá obter as vantagens dos benefícios fiscais e tributários que tais planos oferecem.

Atualmente, nas simulações em planos de renda fixa, utilizar uma taxa real de juros de 6% ao ano já pode ser considerado uma simulação otimista, ou melhor, pessimista sob o ponto de vista da economia nacional, uma vez que o Brasil vem apresentando reduções sistemáticas nas médias das taxas conforme o quadro abaixo. De acordo com as teorias econômicas, quanto menor a taxa de juros reais, mais investimentos são direcionados para a área produtiva de uma nação.

Um bom plano de previdência conservador deve acompanhar de perto a taxa do Certificado de Depósito Interbancário (CDI). Neste exercício, descontamos o IPCA da taxa do CDI e identificamos uma estimativa média de rentabilidade real dos planos de previdência privada.

Uma simulação de plano de previdência com contribuições mensais de R$ 300,00 por um prazo de 30 anos pode apresentar variações brutais de acordo com a taxa de juros simulada. Abaixo realizamos uma pequena demonstração, aplicando a taxa de juros reais de cada ano no impacto final da reserva.

É deveras assustadora a diferença que os juros capitalizados produzem com pequenas variações no percentual simulado, chegando a R$ 873.919,95 a diferença projetada entre os anos de 2003 e 2010.

No ato da compra de um plano de previdência privada, conforme mencionado acima, é comum a utilização de simulações com taxas de juros totalmente fantasiosas, e a utilização de rendas temporárias de 10 anos para facilitar a venda desses planos.

Tais simulações podem ser apelidadas de “Ilusões Previdenciárias”, pois só serão descobertas pelo cliente quando este estiver se aproximando do momento da sua aposentadoria. Vejamos o exemplo abaixo:

Ao buscar um plano de previdência no mercado, o cliente hipotético José informa que pode contribuir mensalmente com R$ 300,00 por 30 anos e que pretende receber uma aposentadoria até o final de sua vida. Coincidentemente, sua expectativa de sobrevida na data de sua aposentadoria planejada seria esses mesmos 30 anos.

Ao verificar a simulação feita pelo vendedor, decide imediatamente contratar seu plano de previdência, pois sua renda seria de R$ 5.157,06. Contudo, alguns pequenos detalhes foram esquecidos ou estavam equivocados.

A simulação realizada contemplava uma projeção de rentabilidade de 10% a.a., e a renda utilizada na simulação era uma renda temporária por 10 anos, ou seja, se a simulação adotasse parâmetros realistas e atendesse ao anseio do cliente de receber a renda de forma vitalícia, teríamos a redução dessa renda para R$ 812,09, ou seja, 6 vezes menor do que o projetado!

Como consequência desse cenário, a previdência individual deve ser tratada com transparência e coerência pelo mercado, contribuindo para o desenvolvimento de uma sociedade mais consciente e menos dependente de benesses governamentais.

Outro ponto que vale o debate, tomando como modelo o mercado das entidades fechadas de previdência complementar, em que o governo por meio de normativo específico limita a 6% ao ano as projeções de rentabilidade real, fica a dúvida sobre a pertinência da implantação de regulação análoga no mercado das entidades abertas, uma vez que, atualmente, o cidadão médio não possui os conhecimentos técnicos necessários à compra consciente de um plano de previdência, a quantidade de consultores especializados na comercialização desses planos é insuficiente, além do princípio da boa-fé que, por vezes, acaba não prevalecendo na hora de fechar um contrato e bater a meta do final do mês. Mais uma missão para a Superintendência de Seguros Privados (Susep) avaliar com a prudência que lhe é peculiar.

29/11/2012 12h23

Por Keyton Pedreira e Cícero Reis

Economista e advogado especialista em Previdência Complementar. É diretor executivo da Nunes & Grossi Seguros. Atuário especialista em Previdência Complementar. É gerente executivo da Nunes & Grossi Seguros.

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