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  Rio de Janeiro, 08 de Fevereiro de 2012 HomeRSSAdicionar aos FavoritosFale com o Editor
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Um Instante

 



Centenários

Que ano o de 1910! No mundo, o nascedouro do século XX já sofria com uma forte agitação social que desembocaria na Primeira Guerra Mundial, mas foi também o ano em que Kandinsky criou a arte abstrata, o primeiro hidroavião subiu aos céus e Jack Johnson foi o primeiro negro a se sagrar campeão de boxe. Enquanto isso, no Brasil, com sua população de 23 milhões de habitantes e prestes a iniciar a produção de discos, acontecia o melhor: nasciam nada menos que Noel Rosa, Custódio Mesquita, Adoniran Barbosa, Haroldo Lobo e Luiz Barbosa. E esses sambistas centenários continuam encantando os corações e mentes de todos os brasileiros com suas lindas canções.

Se alguém teve o dom de arrancar lirismo de cenas cotidianas, sem dúvida foi Noel de Machado Rosa. Estão aí as inesquecíveis “Conversa de botequim” (“Seu garçom faça o favor de me trazer depressa/Uma boa média que não seja requentada...”) e “Com que roupa” (“Agora vou mudar minha conduta, eu vou pra luta, pois eu quero me aprumar/ Vou tratar você com a força bruta, prá poder me reabilitar/ Pois esta vida não está sopa/ E eu pergunto: com que roupa/ Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?...”). Era o samba do asfalto, que havia descido o morro para a cidade e retratava com arte a nova realidade.

O jovem Noel que não chegou a completar 27 anos, tomado que foi pela tuberculose. Viveu e morreu em Vila Isabel, onde compôs a maioria das suas 250 canções que tão bem descreveram os dramas e o cotidiano do povo carioca. Apesar de já ter experimentado o sucesso com algumas músicas, iniciou seus estudos de medicina, mas em seis meses concluiu: “Como médico, jamais serei um Miguel Couto. Mas quem sabe não poderei ser o Miguel Couto do samba? A vocação é necessária até para se dar o laço na gravata”. Certamente foi. Além disso, como afirmou Tom Jobim, “ninguém cantou o Rio melhor do que ele”. E não só Tom, mas também o escritor e poeta Rubem Braga destacaria que “vendo essas letras, eu me pergunto se Noel Rosa não foi, tanto quanto sambista, um cronista e um poeta”.

Quem não entoou ou entoa até hoje a marchinha “Ala-lá ô ô ô, ô, ô?/ Mas que calor, ô ô ô ô ô...”, ou ainda, “Tristeza/ por favor vá embora/minha alma que chora/ está vendo o meu fim/”? Ambas foram compostas por Haroldo Lobo. Considerado, ao lado de Braguinha e Lamartine Babo, um dos três mais expressivos autores do repertório carnavalesco brasileiro, iniciou sua farta produção musical aos 13 anos. A história de “Alá-la ô”, composta em parceria com Nássara e lançada em 1941, é deliciosa. Começou no ano anterior, quando um bloco do bairro da Gávea cantou pelas ruas a marcha “Caravana”, de autoria de seu patrono, Haroldo Lobo. Meses depois, preparando o repertório para o carnaval de 1941, Haroldo pediu a Nássara para completar a composição. E assim surgia a segunda parte da música. Gravada por Carlos Galhardo, conta com atuação primorosa de Pixinguinha, que fez um belo arranjo.
Nascido no Rio de Janeiro de uma família de músicos (o pai, Quirino, tocava flauta e violão, e o irmão, Osvaldo Lobo – conhecido como Badu –, era compositor e baterista), começou a estudar música e a compor desde cedo. Exerceu vários ofícios até cair na boemia e ficar conhecido como Clarineta, por sua voz ter a mesma tessitura do instrumento.

Ainda nos carnavais de 1940/1941 lançou “O passarinho do relógio” e “O passo do canguru”, as duas em parceria com Milton de Oliveira e que traziam uma temática recorrente em sua obra: as letras envolvendo animais. A segunda, aliás, chegou a ser gravada nos Estados Unidos por Carmen Miranda, recebendo o nome de “Brazilian Willy”.

Folião dos mais animados, teve como parceiros Wilson Batista, Roberto Roberti, Cristóvão Alencar, Benedito Lacerda e Marino Pinto. Com esse último, criou ,em 1951 , o grande sucesso “O retrato do velho”, cuja letra comentava a prática instituída por Getúlio Vargas de pôr os retratos dos presidentes nas paredes das repartições públicas. A marcha só não foi apreciada por Getúlio, que detestava ser considerado velho.

Os anos passavam e os sucessos eram contínuos. Em 1961, com Milton de Oliveira, foi a vez de “Índio quer apito”. Em 1965, seu último grande êxito, “Tristeza”, em parceria com Niltinho. Haroldo não teve tempo de usufruir a repercussão que essa música alcançou em todo o mundo.

E mais um centenário vem engrossar as fileiras. Dessa vez, uma das mais lendárias figuras da nossa música, Custódio Mesquita. Sobre ele, muito já foi dito, mas de concreto sobre esse carioca das Laranjeiras só o fato de que, como todo bom boêmio, gostava da noite, de beber com os amigos, era brincalhão e vivia conquistando as mulheres. Não sem motivo: beleza não lhe faltava, era comparado aos galãs de cinema da época.

Mas o que exercia verdadeiro fascínio para Custódio, era a música. Com a mãe, Camila, aprendeu as primeiras noções de música e com o pai, Raul Cândido, os primeiros acordes. Custódio tornou-se órfão de pai muito cedo, e dona Camila não teve alternativa a não ser encaminhá-lo à Escola Nacional de Música, onde estudou com Luciano Gallet, que reclamava que o aluno preferia tirar músicas de ouvido ao invés de ler as partituras. Ao ter aulas com Otaviano Gonçalves, encontrou sua alma gêmea. O professor era adepto do repertório popular.

Pouco depois, em 1926, escondido da família, passou a tocar em clubes e estreou profissionalmente como baterista de orquestra de cabaré, evocando os tempos em que tocava tambor no Fluminense Futebol Clube. Daí para passar a tocar em rádios foi um pulo. Era fixo nos programas de Waldo de Abreu, na Mayrink Veiga e depois no “Programa Casé”, na Rádio Philips. Ocasionalmente, atuava como pianista.

A vocação para a regência, somada ao orgulho ferido, levaram Custódio a aprimorar seu aprendizado musical, tornando-se regente diplomado. O que deu origem a essa mágoa foi a recusa dos músicos da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal de serem conduzidos por sua batuta para um espetáculo especial em que iriam executar algumas de suas músicas. Chegaram a dizer: “Só aceitamos regente diplomado”. Algum tempo depois retornou ao Municipal trazendo o diploma de regente obtido na Escola Nacional de Música.

Começou a compor aos 20 anos e só parou aos 34, abatido por uma insuficiência hepática. Deixou um legado de mais de cem composições. Seu primeiro parceiro foi o também centenário Noel Rosa, em “Prazer em conhecê-lo”. Depois de Noel teve outros parceiros e muitos sucessos, como “Saia do Caminho”, “Nada além”, “Rosa de maio” entre outros.

Outra grande paixão na vida de Custódio foi o teatro, onde fez de tudo: foi coautor em mais de 30 peças, musicou histórias juvenis, revistas e peças burlescas e percorreu quase todo o país com a companhia Jayme Costa.  Além do teatro, Custódio participou como ator em três filmes: “Alô, Alô, Brasil”, “Bombonzinho” e “Moleque Tião”. Neste último também assinou a trilha sonora. Custódio foi casado com a atriz Alda Garrido e é tio do produtor cultural Albino Pinheiro.

Mas não é só o Rio de Janeiro que dá samba. A terra da garoa faz samba também. E foi lá que nasceu João Rubinato, ou melhor, Adoniran Barbosa. O codinome surgiu de um dos personagens que Rubinato fazia numa rádio local, entre eles, Adoniran Barbosa. E a criatura se confundiu com o criador.

Adoniran era filho de Ferdinando e Emma Rubinato, imigrantes italianos da região do Vêneto. Abandonou a escola cedo, pois não gostava de estudar. Além disso, precisava ajudar a família numerosa. Sonhando em ser artista, experimentou um arco de profissões e foi marmiteiro, varredor de fábricas, tecelão, metalúrgico e garçom até encontrar o seu espaço. Apesar de seu talento, por não ter padrinhos nem instrução adequada, foi rejeitado como ator de teatro. Com o advento do rádio, que logo atrairia multidões, viu que esse era o seu caminho. Embora sua vocação fosse para compositor, viu que essa não seria uma boa escolha, já que os cantores compravam a parceria e, com ela, faziam nome e dinheiro. Daí sua escolha recaiu sobre a interpretação.

Tentou diversos programas de calouros. No primeiro, com a música “Se você jurar”, de Ismael Silva, levou gongo. Insistiu e voltou, dessa vez interpretando o samba de Noel, “Filosofia”, que lhe abriu as portas das rádios – o país ganhou, então, um dos seus mais sensíveis intérpretes.

Indo na contramão da história do samba, que procurava o tom elevado das letras e sempre o emprego da segunda pessoa, Adoniran usava construções linguísticas pontuadas pela fala paulistana. Usando a linguagem popular, Adoniram retratava o cotidiano do homem comum como nenhum outro, sem nunca deixar de fazer uma blague, claro. Seu primeiro sucesso, “Saudosa maloca”, virou canção obrigatória nas rodas de samba. Regravada pelos “Demônios da garoa”, a música estouraria no Rio de Janeiro e se transformaria num retumbante êxito. Daí para a frente a vida  seguiu de vento em popa e Adoniran emplacou muitos outros sucessos, como “Trem das onze”, “Tiro ao Álvaro”, “Samba do Arnesto”. Morreu aos 72 anos e deixou mais de cem composições que retrataram histórias variadas.

 

 

 

 

   




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